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Não há educação a distância

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Estamos ainda longe de poder avaliar com objetividade e em toda a sua extensão os prejuízos de vária ordem que se vão fazer sentir socialmente em resultado da paralisação das diferentes atividades económicas, sociais e culturais, em resultado da crise da covid-19.

Aludir aos prejuízos da paralisação não significa pôr em causa, e menos ainda censurar, as medidas preventivas adotadas no período de maior risco de expansão da pandemia, medidas que se revelaram inevitáveis para a contenção da propagação da doença e, consequentemente, para a salvaguarda de vidas humanas.

O reconhecimento da inevitabilidade das medidas adotadas tem de ser acompanhado, como está a ser, da tomada de consciência do desastre provocado pela crise sanitária da covid-19 e, sobretudo, pelos efeitos negativos da paralisação da grande maioria dos agentes económicos, sociais e culturais, daquela decorrente.

Tem sido exaltado, e bem, o esforço de todos quantos se dedicam à educação, em particular o dos professores, para minimizar as consequências negativas do encerramento das escolas e da interrupção das atividades escolares presenciais, designadamente pelo recurso e mobilização de meios tecnológicos para promover o chamado ensino a distância.

Há que, sem dúvida, enaltecer este esforço, mas fiquemo-nos por aqui. Seria um erro partir desta experiência, ensaiada numa emergência, para a defesa de um novo modelo de educação, baseado no ensino a distância. A comunicação e a difusão de informação a distância, hoje muito facilitadas pela tecnologia, não chegam para compor, nem de longe nem de perto, o quadro de exigências da atividade educativa e, por isso, não podem deixar de continuar a ser considerados como meros recursos de apoio educativo, sobremaneira úteis numa emergência como a que vivemos, mas sem condições para se afirmarem como alternativa à escola que conhecemos.

A escola e o processo de ensino-aprendizagem presencial, tal como os conhecemos são, por enquanto, insubstituíveis. As sentenças que, desde meados do século passado, têm sido proferidas sobre o fim da escola até agora não passaram de lucubrações sem aderência à realidade.

A escola, considerada no seu sentido mais abrangente, é, simultaneamente, um espaço e uma oportunidade de crescimento multifacetado dos indivíduos e, não menos relevante, um espaço e um momento de socialização. Esta complexa função da escola só é possível desenvolvê-la numa comunidade de aprendizagens, na qual hão de estar envolvidos de modo efetivo estudantes e professores.

O processo educativo só se desenvolve adequadamente no seio de um coletivo, numa comunidade educativa, onde, além do mais, haja um espaço e um tempo de convívio e interação pessoal, uma relação de proximidade e de afetividade, um padrão e uma regra de conduta comum, um projeto educativo e um plano de estudos comuns e, não menos importante, a promoção de valores comunitários fundamentais, como sejam a liberdade e a responsabilidade individuais, a igualdade, a solidariedade e a cidadania.

Só a escola presencial, em qualquer dos seus níveis, da educação pré-escolar à universidade, pode cumprir esta complexa missão. De resto, como recentemente tem sido salientado, o ensino a distância implica o recurso a por vezes sofisticados meios tecnológicos do mercado, inacessíveis a muitos dos estudantes, o que o tornaria um fator de desigualdades sociais e, por isso, atentatório de um dos mais nobres objetivos da educação.

Nisto, como em tudo, o que é necessário é não confundir realidades distintas nem ver alternativas onde elas não existem: a escola presencial é uma coisa, por enquanto, insubstituível na educação; o ensino a distância é outra coisa, um meio avançado de suprir temporariamente a escola, em situações de excecionalidade como a atual, e, para além disso, um recurso muito útil para satisfazer as necessidades de determinados segmentos da população adulta que, por razões de diversa natureza, não pode frequentar o ensino presencial.

Nota: Este texto vincula apenas a opinião do autor e não a A3ES

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Fonte: Público

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