Início Educação Mesmo com mais casos e restrições, escolas aguentam-se abertas

Mesmo com mais casos e restrições, escolas aguentam-se abertas

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Dois meses volvidos sobre o início do ano letivo, os piores receios de que o regresso às salas de aula de mais de um milhão de alunos fizesse das escolas mais um foco de surtos e propagação do novo coronavírus não se confirmaram. É certo que ninguém sabe neste momento quantos alunos estão a estudar em casa por terem testado positivo ou terem tido contactos de alto risco, quantos professores estão de baixa por estarem infetados ou quantas escolas foram encerradas por decisão das autoridades de saú­de. O Ministério da Educação tem estes dados, já que as direções dos agrupamentos têm de os reportar, mas não os divulga nem explica porquê. Ainda assim, pelos casos que vão sendo conhecidos, percebe-se que são uma minoria no enorme universo educativo.

“A procissão ainda vai no adro. Mas, atendendo às expectativas — chegou a dizer-se que as escolas iam abrir para fechar duas semanas depois —, penso que podemos dizer que o trabalho de preparação dos diretores foi muito positivo e está a dar bons resultados. Claro que não controlamos o que se passa nos transportes que os alunos apanham, nos treinos fora da escola, nos convívios que têm no exterior e quando estão com a família. Mas nas escolas as regras e procedimentos são, na generalidade, respeitados por todos”, avalia Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

Apesar de a Direção-Geral da Saúde já ter reconhecido a existência de vários surtos em comunidades educativas, na esmagadora maioria das vezes a situação foi resolvida com o isolamento de turmas ou alguns fechos temporários, por períodos de 14 dias. E este é desde o início o objetivo anunciado pelo Governo. Ao contrário do que foi decidido na primeira vaga, quando os primeiros casos de covid-19 foram detetados no país e quase tudo encerrou, escolas incluídas, a prioridade agora é manter os estabelecimentos de ensino sempre abertos, mandando para casa apenas os alunos da ‘bolha’ afetada. À falta de dados oficiais, o recurso às notí­cias que foram sendo publicadas indica que até agora apenas nos concelhos de Vila Viçosa e Borba foi determinado pelas autoridades regionais de saúde o fecho generalizado (das poucas) escolas dos municípios.

A decisão de evitar o fecho das escolas tem sido a regra na Europa, mas alguns países, perante o aumento de casos, voltaram ao ensino à distância

Só que à medida que os casos de infeção aumentam na comunidade sobe a pressão. “Nesta altura, tenho mais de 100 alunos em casa. Todos os dias surgem mais casos, que nem aconteceram aqui dentro, mas nos contactos lá fora. Ainda esta semana tive de enviar todas as funcionárias da cozinha para casa, por causa de um caso positivo. Há professores que também estão de baixa, por estarem a acompanhar os filhos pequenos. Neste momento, tenho todas as modalidades de ensino a funcionar. Misto, à distância, presencial. É muito complicado, porque temos de arranjar soluções para tudo e a toda a hora com os recursos que temos“, desabafa Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) e diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães, que era, até à semana passada, o município com a 15ª maior taxa de incidência de casos de covid por 100 mil habitantes. “É verdade que a maioria das pessoas está a trabalhar nas escolas. Mas por causa da situação epidemiológica no concelho há muita ansiedade e preocupação. E os professores estão mais cansados, já agora em novembro, do que o normal.”

A experiência de ensino à distância que todos foram obrigados a pôr em prática no ano letivo passado é, sem dúvida, uma ajuda para estes meses e os que se avizinham. Mas em Cinfães, como noutros pontos do país, há dificuldades que subsistem. Se a falta de computadores tem sido remediada por escolas, autarquias, empresas e famílias, e agora pelo Governo — esta semana foram entregues os primeiros 25 mil a alunos carenciados do secundário e outros 75 mil deverão chegar nas próximas semanas para serem emprestados —, continua a haver zonas onde não se consegue ter acesso à internet. “Mesmo na escola, se estiverem vários professores ao mesmo tempo a dar aulas, tem de se andar à procura de um cantinho onde a rede seja mais forte.”

OS IMPACTOS DO FECHO

Mas num ano letivo que continuará a ser marcado pela pandemia há outras adaptações a condicionar a rotina de escolas e alunos. As visitas de estudo e atividades que envolvem a presença de muitos alunos juntos estão suspensas sine die, trabalhos em grupo com colegas a discutirem à volta da mesa também deixaram de acontecer. E nas aulas de Educação Física os desportos coletivos transformaram-se em exercícios individuais ou em muito pouca atividade, quando os balneários não podem ser usados, o que acontece em muitas escolas.

A decisão de evitar o fecho de escolas a todo o custo tem sido a regra na Europa. Até agora, uma minoria de países, e em função do agravamento da evolução epidemiológica, optaram por regressar ao ensino à distância em todos os níveis de ensino. Aconteceu na República Checa (que entretanto já começou a reabrir) ou na Grécia, enquanto outros decidiram que as aulas passariam a ser à distância mas apenas no secundário ou superior. É que todos sabem os custos que o fecho das escolas traz para os alunos, sobretudo os que já estão em situação mais frágil. Um segundo estudo sobre o impacto da pandemia publicado na semana passada pelo organismo que regula as escolas no Reino Unido foi claro nas conclusões: alguns alunos perderam competências básicas e conhecimentos, houve crianças que regrediram e que voltaram a usar fraldas, outras, mais velhas, que ficaram com problemas de peso e destreza física e outras ainda com sinais de perturbações mentais.

Isabel Leiria in Expresso

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