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Máscaras, desdobramento de turmas, prolongamento do ano letivo, câmaras térmicas. Como vai ser a reabertura das Universidades

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A covid retirou os estudantes dos campus, obrigou a repensar todo o sistema de ensino superior, mas é preciso preparar o regresso. Também este anuncia data: início de maio, assim que terminar o Estado de Emergência no país.

Regressar terá como guião um processo ponderado, gradual e reservado aos alunos mais prejudicados pela paragem rigorosa a que o novo vírus obrigou, assim mandam as diretrizes do Governo. Até porque o ensino à distância “está a funcionar e bem, houve uma adesão verdadeiramente surpreendente”, anuncia António de Sousa Pereira, reitor da Universidade do Porto, onde o trabalho é de grupo mas foi dividido por faculdades.

Nos cursos em que se considera “perfeitamente aceitável” continuar com o ensino à distância, a exceção poderá apenas pôr-se aquando dos exames finais. Nos que contêm disciplinas práticas, a apreciação está a ser feita disciplina a disciplina.

Num curso de Medicina, exemplifica António de Sousa Pereira, “a cadeira de História da Medicina não precisa de ser presencial, mas numa das de cirurgia não se pode ensinar a operar sem ter as mãos na massa”. O mesmo acontece com cadeiras laboratoriais ou, no caso de Belas Artes, com disciplinas de pintura ou de escultura, muitas vezes a precisarem de fornos e de ateliers impossíveis de ter em casa. “Não é através de uma câmara de computador que se aprende a pintar.”

HÁ QUEM RESISTA SEM ATIVIDADE PRESENCIAL

Na Universidade de Coimbra, a primeira do país a aderir ao ensino à distância, a prioridade, diz ao Expresso o reitor, Amílcar Falcão, são os mestrados e os doutoramentos, porque é preciso “dar prioridade à investigação”, como “bem mencionado” está no despacho do Governo. Para as licenciaturas, as aulas práticas ficarão de fora até ao final deste ano letivo.

Com dois terços dos estudantes oriundos de outras zonas do país, parte da explicação está na dificuldade que seria levá-los de volta a Coimbra, quando “muitos já não têm sequer quarto na cidade, porque saíram para evitarem gastar dinheiro”, ilustra o reitor.

Esta é uma das “especificidades próprias” da academia coimbrã. Mas também há os laboratórios, com capacidade para apenas 18 a 20 alunos, onde as regras de confinamento iam reduzir o número para cerca de seis alunos. “Isso significava triplicar o número de turmas”, garante, já com contas feitas por entre as “reuniões contínuas”.

Na Universidade de Lisboa, a exceção será feita apenas aos cursos em que se acredita não haver de todo condições para prosseguir com o ensino à distância. É o caso de Medicina Dentária, “nomeadamente dos anos clínicos”, e dos alunos com dificuldades em ter aulas à distância, “que poderão usar os computadores e a rede da universidade, garantindo o distanciamento social”, anuncia o reitor António Cruz Serra, “francamente” descrente na possibilidade de que “haja condições para retomar o ensino presencial nas universidades a 4 de maio”. “Nem consigo perceber bem o que está a acontecer porque, na Europa, não vemos nenhuma universidade a planear começar nos próximos dias”, assevera.

Um inquérito feito a mais de 12.500 alunos da Universidade de Lisboa revelou que 1,8% deles têm problemas em ter aulas à distância, sobretudo por causa da partilha de espaço com a família.

Mesmo na academia portuense há faculdades a decidir não reabrir, caso da de economia. “É lógico haver cursos simplesmente sem atividade presencial, como Economia e Gestão, alguns da área das Letras e Direito”, admite o reitor.

Também nos politécnicos, a reabertura de portões está pensada para “um conjunto muito específico de atividades, como algumas aulas laboratoriais e alguns exames presenciais”, conta ao Expresso Pedro Dominguinhos, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Num momento em que cada instituição de ensino já está a analisar “as condições específicas para preparar planos de regresso faseado às atividades letivas”, não lhe parece viável equacionar o regresso para antes do mês de junho, com exceção feita “aos laboratórios de investigação”, retomados já em maio.

Mas avisa: “todas as atividades que puderem ser concluídas durante o período, deverão sê-lo”. Nas que voltarão a ver alunos, “há que ter garantido o distanciamento físico e o uso de material de proteção individual”, razão pela qual, a acompanhar os planos de reabertura, há planos de compra avultada de álcool-gel, de viseiras e, a caminho de Coimbra, “muitos milhares” de máscaras, que no caso do Porto chegam ao meio milhão. A ser estudada está também a possibilidade de instalar câmaras térmicas nas entradas principais dos edifícios da principal universidade do norte do país, para “fazer o controlo da temperatura à entrada”. Em Lisboa, haverá regularmente testes “para toda a gente que venha trabalhar nesta fase”.

PROLONGAR AULAS ESTÁ EM CIMA DA MESA, MAS A PRIORIDADE É MANTER CALENDÁRIOS

O ensino à distância vem abanar todas as estruturas essenciais do ensino superior e onde ele acaba é onde começam as preocupações dos estudantes: na avaliação, sem evidência de que os sistemas de a concretizar à distância sejam justos e eficazes.

No Porto, sempre que possível, “vai-se privilegiar sistemas de avaliação contínua”, mas a expectativa é a de que “a evolução da pandemia permita realizar exames presenciais”, mesmo que para isso seja preciso “recorrer a pavilhões gimnodesportivos”, confessa António de Sousa Pereira. Numa aposta diferente, Coimbra vai adotar “um sistema híbrido”, com avaliação presencial, ao mesmo tempo que será privilegiada uma componente digital.

Em cima da mesa está a possibilidade de criar aulas práticas compensatórias “para lá do final do ano letivo”, em julho, se a pandemia permitir mais descanso social nesta altura do ano. No entanto, para as academias de Lisboa e Coimbra, esta distensão nunca significará um alongar do ano letivo, já que a prioridade é garantir o término deste a 31 de julho.

“A pior coisa que podíamos fazer era estragar dois anos letivos, por isso queremos encerrar este e preparar o próximo, com medidas adicionais, que poderão incluir contratar pessoas, alterar infraestruturas ou criar aulas à noite”, reconhece o reitor Amílcar Falcão ao Expresso, tal como o homólogo lisboeta. “Garantimos aos professores e alunos terminarmos o semestre no dia 31 de julho, com aulas e avaliação à distância. Não vamos mudar de opinião todos os 15 dias por causa deste assunto”, afirma António Cruz Serra, numa altura em que, garante, 9 mil alunos internacionais já voltaram para os seus países.

Entre a vulnerabilidade das medidas deliberadas a dois meses de acabar o ano letivo está a certeza de que as metamorfoses conseguidas “à bruta” acarretam um ponto de não retorno para o ensino superior. Há um olhar com mais interesse para as novas tecnologias e a constatação de que, à distância e sem perda de rendimento, há cenários em que se torna possível melhorar substancialmente a vida dos estudantes.

Fonte: Expresso

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