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Já degolam professores – Rui Cardoso

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Foi assim que morreu Samuel Paty, degolado. À porta da escola onde lecionava encontrou a morte por ensinar. Por ensinar a pensar, por ensinar a liberdade de expressão, por ensinar o respeito, por ensinar a crítica. Samuel Paty morreu, mas morreu livre.

No dia 16 de outubro, numa escola, nos arredores de Paris mataram um professor à porta de uma escola e o mundo não se indignou. As reações, não se fizeram esperar. Uns criticaram a forma como tinha sido morto, outros a razão porque o tinham matado, mas ninguém se mostrou surpreso.

À porta de uma escola jazia o corpo ensanguentado de um professor, degolado por um extremista. O nosso mundo não foi abalado por esta morte. Esta morte não teve significado, foi mais uma morte, como tantas outras, que aconteceu, de repente, quando todos estávamos à espera que isso acontecesse.

O professor morreu e o mundo não parou, nunca para quando alguém morre, mas devia ter parado.

Quando se mata um professor de um país livre, que vive em liberdade, por ensinar a ser livre e a entender a liberdade dos outros, o mundo deve parar, deve pensar, deve agir. França levantou-se em peso e agiu, mas foi só por lá. O presidente Daniel Macron levantou a voz para se indignar, o povo francês saiu do sofá e indignou-se na rua através de manifestações. A imprensa francesa deu conta de manifestações impressionantes e de uma onda de protesto que une milhares ou milhões de pessoas, um verdadeiro levantamento social.

Por cá, por Portugal, por Espanha, na Alemanha, no Brasil, no Senegal, nas Ilhas Faroé, ou na longíssima Austrália, a notícia passou em rodapé. Ninguém se indignou, ninguém chorou, ninguém se manifestou, nem contra nem a favor, ninguém saiu à rua a clamar por justiça. Ninguém! Não aconteceu nem aqui nem por lá, aconteceu em França, eles que se indignem, manifestem, chorem e saiam à rua, o problema é deles.

A não ser num grupo de blogues sobre educação, onde se discutiu o acontecido e que dinamizou uma homenagem ao Professor Samuel Paty, ninguém mais deu importância a esta morte pela liberdade de expressão. Não lhes falta a liberdade de expressão e já não se lembram que os pais lutaram por ela e os avós não a tinham, já nasceram sem ela, porque alguém a tinha tirado aos avós deles. A liberdade de expressão é algo que se tira com facilidade, é algo porque se mata, pela qual se morre, com uma facilidade como a de abrir a boca e à velocidade do som que por ela se emite.

Recentemente, outros atos hediondos, tiveram lugar num outro país distante. Esses atos hediondos andaram de boca em boca. Depressa, todos se indignaram, todos se manifestaram, todos saíram à rua e todos falaram, em liberdade, aquilo que pensaram. Mas o ato hediondo, desta vez, tinha sido “o ser”.

Esquecem-se, estas gentes, que para “o ser” é necessário ser libre de o expressar e que são professores como Samuel Paty que ensinam a liberdade.

 

Rui Gualdino Cardoso, Editor do Blog DeAr Lindo, Professor

Público

 

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