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“Há o risco de o abandono escolar vir a aumentar”

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fecho das escolas fez com que as salas de aula passassem para dentro de casa e essa transferência agravou ainda mais as desigualdades entre alunos. Porque na mochila que carregam não estão apenas livros, mas o peso das habilitações dos pais e dos recursos em casa que condicionam, e muito, o sucesso e a capacidade do estudo à distância. As consequências de um 3º período atípico e improvisado ainda estão por apurar, mas há marcas que vão ficar, avisa a investigadora.

O ano letivo mais complicado de que há memória terminou ontem. Que marcas vai deixar nos alunos?

Ainda é muito cedo para sabermos. Mas é certo que vão ser profundas, na medida em que o próprio conceito de escola foi interrompido. Uma escola sem alunos e sem professores cumpre mal a sua função. Não foram só as aulas presenciais que foram suspensas. Foram os processos de socialização — claro que agora existem outras vias, mas não replicam os contextos escolares — e toda a aprendizagem em torno do que é lidar com as diferenças, por exemplo.

Três meses de interrupção é o suficiente para deixar essas marcas?

Três meses é imenso tempo. É diferente quando essa pausa acontece nas férias de verão, com as escolas naturalmente fechadas. Desta vez encerraram numa altura crucial, entre o 2º e o 3º período, quando os alunos fazem balanços e progressos e contas ao acesso ao ensino superior. Enquanto país não podemos abrandar o fluxo de estudantes que segue para o ensino superior. É um imperativo manter e até aumentar.

Concorda então com a decisão do Governo de reabrir as escolas apenas para o 11º e 12º anos, mantendo fechado o ensino básico?

É difícil ter uma opinião definitiva. Em primeiro lugar, é preciso perceber que a decisão inicial de fechar não foi uma medida educativa, mas de saúde pública. Foi só a 9 de abril que o Governo anunciou o retomar das aulas presenciais, apenas para o 11º e 12º anos e só nas disciplinas sujeitas a exame nacional. Na minha opinião, esse foco no ensino superior justifica-se. Contudo, não permitir o regresso dos miúdos do ensino básico pode causar danos enormes. Sobretudo entre os mais novos, que estavam não só a aprender a ler e a escrever, como a aprender a andar na escola, com todas as suas regras.

Ou seja, devia então ter sido equacionada a reabertura da escola também para os mais novos?

De uma coisa tenho a certeza: pelo menos em setembro tem de se arranjar um modelo para as crianças regressarem à escola. Não é possível prolongar mais esta situação.

A questão é que os próprios pais manifestaram receio e consideraram que o Governo estava a abrir o secundário e o pré-escolar cedo demais.

É verdade. E foi mais fácil abrir creches e jardins de infância porque ficou ao critério dos pais decidir se levavam ou não os filhos. É um conforto que não se pode colocar ao nível da escolaridade obrigatória.

É possível recuperar o que não foi aprendido?

É, mas de forma desigual. Há crianças para quem vai ser relativamente fácil. Mas para as que já tinham dificuldades na escola e uma relação distante com a instituição vai ser muito mais difícil. O primeiro passo para recuperar desta situação é fazer os professores e os alunos regressarem às escolas para que estas possam voltar a ser escolas.

Os pais perceberam melhor a importância dos professores quando simularam serem eles próprios os professores dos filhos

O ensino à distância agrava inevitavelmente os fossos existentes?

Sim. Quando os alunos entram na escola levam na mochila muito mais que os livros. Levam também as suas condições de partida e os seus contextos. Se a escola já tem dificuldade em contrariar essas adversidades, quando transferimos as salas de aula para dentro de casa todas essas desigualdades ficam mais expostas: seja entre os pais que podem ou não apoiar os filhos, alunos que têm e não têm acesso à internet ou outros recursos e a capacidade de utilizar esses instrumentos. Já sabíamos que os contextos e, em particular, a escolaridade dos pais têm muito impacto no sucesso escolar. Claro que podemos sempre dizer que temos uma prima que é doutorada e que a mãe não estudou. Mas, por regra, condiciona. Tudo aquilo que se montou, com o ensino à distância e a telescola, embora não saibamos bem os seus resultados, foram mecanismos úteis numa situação nunca antes vivida. Agora, não devemos olhar para a desigualdade como uma espécie de fatalismo. Não há sistemas educativos de desigualdade zero, mas há uns muito mais equitativos, como é o caso da Finlândia, Noruega ou Dinamarca.

Porque é que Portugal não consta dessa lista?

A própria sociedade portuguesa é muito desigual, e essa desigualdade não fica à porta da escola. Nos testes PISA, verifica-se que a diferença de competências de leitura em Portugal entre os alunos com mais e menos condições socioeconómicas e culturais é das mais acentuadas da Europa. E apesar da melhoria nos resultados globais essa marca de desigualdade do sistema persiste. Por outro lado, historicamente, as escolas portuguesas estão muito segmentadas nos seus públicos. E os rankings tiveram alguma influência nesse reforço, na medida em que contribuíram para reforçar essa afirmação, mesmo dentro do sistema público, de escolas de gueto e escolas de elite.

O abandono escolar pode voltar a aumentar?

Há esse risco. Sobretudo no 3º ciclo e ensino secundário. Para alguns alunos este período traduziu-se em pouquíssimo aproveitamento e cavou-se a distância entre eles e a escola. Porque ainda era com os seus professores e os pares que alguns se mobilizavam para a aprendizagem. Em casa, com famílias que estão elas próprias também afastadas da escola e com poucas habilitações, é muito mais difícil. E nós temos uma população ativa em que nem as habilitações ao nível do ensino secundário estão generalizadas. O desafio para a administração escolar no próximo ano letivo é enorme. Até porque nem sabemos como vai ser retomada a vida nas escolas.

O aumento do abandono é o seu maior receio?

Não só. Também temo que surjam dificuldades decorrentes da interrupção de dinâmicas de aprendizagens, socialização e aquisição de competências e ainda uma eventual diminuição no acesso ao ensino superior.

E o que precisam as escolas de fazer para minorar o impacto dessas consequências?

As escolas deviam ser reforçadas em termos de recursos e instrumentos de gestão. Sobretudo as que apresentassem uma estratégia para lidar com essas desigualdades.

O Governo anunciou um reforço de €400 milhões para a digitalização das escolas e para o acesso dos alunos a computadores e internet. É o suficiente?

É muito relevante, mas não chega. As escolas vão precisar de ter capacidade para definir a melhor forma de lidar com as dificuldades que os seus alunos vão apresentar, como por exemplo, trabalhar com grupos mais pequenos e reforçar os apoios para os que ficaram com mais atrasos na aprendizagem. Isso porventura implicará mais professores. Mas também é preciso pensar na sua formação.

Em que sentido?

Os professores fizeram um trabalho extraordinário e não temos na história recente uma adaptação e resposta tão rápidas quanto esta. Isto tem de ser reconhecido. Mas é preciso pensar na sua capacitação. Um estudo da rede Eurydice do ano passado dá conta de que Portugal é um dos poucos países em que as tecnologias não estão nas competências prioritárias do currículo de formação de professores. Também é preciso trabalhar a questão das desigualdades e a forma como se pode lidar com elas. Há professores que têm muita dificuldade nesta matéria.

Acha que os pais perceberam melhor a importância dos professores?

Perceberam ainda melhor quando simularam serem eles próprios os professores dos filhos. Os professores são preparados para aquela função e a escola não só educa, como assegura o apoio às famílias que não podem ficar com as crianças em casa.

Que lições se tiram desta crise?

Se há coisa que aprendemos com crises deste tipo é que estamos mais bem defendidos com mais escola, mais qualificação, mais pessoas a seguir para o ensino superior. As sociedades sabem reagir melhor quanto mais qualificadas forem.

Fonte: Expresso

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