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“Focados em iniciar o próximo ano letivo de forma presencial” – Pedro Adão e Silva

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Hoje é possível dizer que a sociedade portuguesa teve uma reação notável à covid-19. O espírito comunitário e o comportamento cívico predominaram e a rapidez com que o país confinou ajuda a explicar que o padrão de contágio se tenha afastado dos cenários apocalípticos. O modo como, em particular, escolas e universidades fecharam e transitaram para o ensino à distância foi fundamental: por um lado, deram um sinal imediato; por outro, demonstraram que era possível mudar práticas de trabalho num ápice e com extraordinária capacidade de adaptação.

Agora, quando restam poucas semanas de aulas no básico e no secundário e o semestre letivo no superior já terminou, é também óbvio que há um sem-número de problemas que decorrem do fechamento por tempo indeterminado das instituições de ensino.

Da mesma forma que as escolas e as universidades lideraram pelo exemplo em março, sinalizando que o país tinha de alterar radicalmente comportamentos, agora é chegado o momento de voltar a dar o exemplo, mas em sentido contrário.

Num país com um défice estrutural de qualificações de ativos, com níveis de abandono escolar precoce que recuperaram muito, mas são ainda preocupantes, e com um peso elevado de jovens que não estão nem no emprego nem a trabalhar, por cada semana em que as instituições de ensino estão fechadas, o país recua anos. Como resulta óbvio, o ensino à distância traz à tona as profundas desigualdades que a escola pública, apesar de tudo, atenua. São as famílias com maiores recursos simbólicos e materiais aquelas que melhor conseguem conciliar trabalho com as aprendizagens dos filhos.

As escolas e as universidades fechadas não nos devolvem apenas as desigualdades persistentes, que são a marca estrutural mais pesada da sociedade portuguesa, dão também um mau sinal ao país. Num momento de crise económica e com o mercado de trabalho a deprimir, precisamos de ter mais pessoas a estudar, procurando as competências e as certificações que o mercado, mais à frente, reconhecerá. Este é o momento para devolver não apenas os jovens, mas também os adultos às escolas e às universidades, promovendo um processo de reconversão preventivo de qualificações.

Abrir as escolas e universidades acarreta riscos, mas terá certamente um efeito multiplicador positivo, necessário no momento atual. Face aos dados epidemiológicos conhecidos, devíamos estar focados em iniciar o próximo ano letivo de forma presencial. Com cuidados redobrados e mudanças de comportamentos, mas flexibilizando as regras de distanciamento físico, incompatíveis com os espaços onde as aulas decorrem.

E se a curva se inverter? Volta-se a fechar o ensino, provavelmente de forma mais localizada. Afinal já sabemos que somos rápidos e exemplares a confinar e é diferente prosseguir aulas com turmas e alunos que chegaram a frequentar escolas do que, de início, não começar o ano letivo.

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