Início Sociedade “Fechar as escolas não funcionou” – Pedro Adão e Silva

“Fechar as escolas não funcionou” – Pedro Adão e Silva

2219
0

Uma boa análise para refletir.

Não concordo apenas com o conformismo perante o facto de não haver dinheiro para mais professores e respetivo desdobramento de turmas. Como sabemos no PEES não está prevista verba suplementar para a Educação para além dos 400 milhões para e Escola Digital.

No entanto, devíamos todos exigir que se invista em recursos humanos para diminuir turmas, desdobrando ou o que qusierem, e assim apoiar mais e melhor cada aluno. Só assim podemos regressar ao ensino presencial com as devidas precauções.


Não eram necessárias grandes avaliações para se descobrir o óbvio: fechar as escolas não funcionou. Não me entendam mal. O encerramento das escolas era uma inevitabilidade (as famílias já estavam a impedir que os filhos fossem às aulas), foi decisivo para conter a propagação da pandemia e, na altura, era um sinal que tinha de ser dado à sociedade.

Mas as evidências não deixam margem para dúvidas. Nesta semana, o “Wall Street Journal” dava conta de que, nos EUA, estimativas preliminares sugerem que, quando regressarem as aulas, as aprendizagens de leitura corresponderão a 70% das de um ano letivo normal e, em matemática, em redor dos 50%. Estes valores são significativamente mais baixos em famílias com menores rendimentos e mais afetadas pelo confinamento.

Entre nós, a Fenprof, com base num inquérito a 3500 professores, chegou sensivelmente às mesmas conclusões. Em meados de maio, mais de metade dos professores (55%) ainda não tinha conseguido contactar todos os alunos, uma maioria esmagadora considerava que as desigualdades se agravaram (94%) e uma grande percentagem (60%) sustentava que o apoio do Ministério da Educação tinha sido negativo (sic).

Numa sociedade que vem recuperando, muito lentamente, nos indicadores de abandono escolar precoce e em que persiste um profundo défice de qualificações, estes meses de ensino à distância deviam fazer soar todos os alarmes. Estamos perante um exemplo gritante de impacto assimétrico da pandemia: com o afastamento físico e simbólico da escola pública, as desigualdades agravam-se e o país delapida um património de conquistas recentes.

A Fenprof tem razão no diagnóstico. A questão, agora, é como resolver o problema. O ensino à distância foi melhor do que nada e tenderia sempre a assentar em bases frágeis (até porque, como é reconhecido no Programa de Estabilização Económica e Social, há défices estruturais de competências digitais na escola, área em que o país esteve dez anos parado).

É impensável, em setembro, iniciar o ano letivo sem aulas presenciais. Só que, tal como colocadas hoje, as exigências de distanciamento físico inviabilizam qualquer forma alternativa de abertura das escolas (não há nem instalações nem professores nem horários para desdobrar turmas). Resta, como tal, flexibilizar as regras e abrir normalmente o ano letivo — com cuidados sanitários acrescidos e coletivamente preparados para, se for caso disso, fechar escolas de um dia para o outro e massificar testes.

Sobra um problema. Como temos percebido, entre os professores a incidência de membros de grupos de risco é desproporcional. Desenhe-se um mecanismo adequado de juntas médicas e financie-se a aposentação para quem corre riscos a dar aulas. Fica certamente mais barato do que o preço que o país pagará se as escolas se mantiverem fechadas. Estou certo de que a Fenprof, tão preocupada com as desigualdades, não deixará de apoiar.

Fonte: Expresso

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.