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Escola em casa agrava fosso entre estudantes

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No final do 2º período, quando Manuel Pereira, diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães (Viseu), teve de comunicar as notas do 2º período às famílias dos mil alunos do ensino básico percebeu que, para 200, as classificações tinham de seguir por carta, por falta de meios informáticos. “Há uma percentagem significativa de alunos que não tem computador, ligação à internet ou telemóvel”, tem avisado o também presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares.

No seu agrupamento, como em tantos outros, o ensino à distância não poderá chegar apenas por via digital e serão precisos meios mais analógicos como fichas de papel entregues em mão, correio e conversas entre professores e miúdos por telefone fixo. Porque nem todos têm acesso às plataformas digitais, como o Zoom, WebEx ou Teams, que passaram a ser as novas salas de aula desde que as escolas fecharam. “Uma coisa são os decretos-lei, outra é a realidade. Será preciso muito bom senso e pragmatismo para levar este 3º período avante”, alerta.

O drama é este: se grande parte do sucesso escolar dos alunos é explicado pelos recursos das famílias, agora que o ensino é feito em casa, haverá inevitavelmente um “exacerbar das desigualdades”, reconhece Pedro Freitas, investigador do Centro de Economia da Educação da Nova SBE.

Com base nos números do INE e juntamente com o economista Hugo Reis, o investigador estima que cerca de 50 mil alunos até aos 15 anos não têm acesso a um computador com internet. Só que a estes têm de juntar-se muitos milhares que estão agora em casa com os pais em teletrabalho e em que os equipamentos até existem, mas são insuficientes para todos.

HORAS A VER TELEVISÃO

Com quatro filhos em casa, Marco Oliveira, técnico de informática, teve de ir ao baú recuperar um computador com 15 anos e teclas em falta. “É com esse que o Samuel, de 11 anos, faz os trabalhos da escola”, conta o pai, de 47 anos. A mulher, professora, também está em teletrabalho. Os dias são divididos entre preparar refeições para os seis, tratar da casa, ajudar a filha de seis anos a aprender a ler, apoiar o de 11 a acompanhar a escola, tomar conta do mais novo com três e tirar dúvidas à mais velha, de 14.

“O ideal seria um de nós poder estar apenas a prestar assistência à família”, defende Marco Oliveira. No regime atual, basta um dos pais estar em teletrabalho para que o outro não possa aceder ao apoio de assistência aos filhos menores de 12 anos. A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas pede ao Governo para eliminar esta condicionante e criar a possibilidade de exercer teletrabalho a tempo parcial, com acordo da empresa e compensação da Segurança Social.

“Lamento que o nosso filho mais novo passe o dia a ver televisão, mas só assim conseguimos que nos dê algum espaço. E a partir de segunda-feira vem outro problema. Só temos uma televisão e com a telescola os outros três vão precisar dela. O mais novo terá de ficar a ver desenhos animados no tablet.” O desespero repete-se de lar para lar. “Durante a semana estamos mais tensos porque queremos responder ao trabalho, não deixando nenhuma das crianças de parte. É difícil manter a concentração e lidar com o sentimento de culpa, porque sempre que me foco no trabalho sinto que devia estar a dar-lhes atenção. Para evitar isso, tentamos os dois trabalhar à vez”, conta Sara Dias, mãe de duas crianças, de quatro anos e dez meses.

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Fonte: Expresso

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