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Ensino à distância: não tomar a nuvem por Juno – António Carlos Cortez

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Começo por esclarecer que usarei aqui a expressão “ensino à distância” consagrada pelo uso, forma explícita e que serve para desmontar equívocos: os professores, no actual contexto de pandemia, não vão “ensinar a distância” a quem quer que seja, até porque, à distância a que todos nos encontramos, ficaria difícil, em regime online, entender de que distâncias estaríamos a falar. A locução “à distância” (como outras similares, “à tarde”, “à medida”, “à desgarrada” – não cantamos a desgarrada, não lanchamos a tarde e não avançamos no conhecimento a medida que estudamos), requerendo um complemento, vem esclarecer que a distância de que se trata é a que se interpõe entre professor e aluno. Porquanto o complemento implícito corresponde “à distância de alguém”, ensinaremos, por agora, à distância. E ninguém irá defender, à revelia do que as autoridades linguísticas defendem (de Lindley Cintra a Maria Helena Mira Mateus, de Ivanildo Bechara a João Costa), que por estes meses é de “ensino a distancia” que devemos falar. Não. É de ensino à distância, sem mais. Mas, sobretudo, de que ensino.

Paulo Guinote, na sua coluna “Educação e Memória”, que assina quinzenalmente no Jornal de Letras, publicou no último número deste periódico cultural um importante artigo onde escalpeliza, em contexto de sala de aula e fora dele, as potencialidades das múltiplas plataformas de que todos os professores poderão dispor neste tempo. Do Classroom ao Microsoft Teams, da Escola Virtual à ClassMarket, até aulas que permitem organizar fóruns para debate, o certo é que esta disponibilização de materiais não dispensa a lógica do processo pedagógico, assente na relação entre professor e aluno. Mais: a fé no digital não esconde o fosso existente entre quem tem acesso ao mundo multimédia e quem, fora dos centros urbanos, ou vivendo num agregado mais pobre, dificilmente acede às ditas plataformas. Logo, o professor continuará a ser o pilar da transmissão dos saberes e deve, científica e retoricamente apetrechado, continuar a ser o pedagogo, no sentido original da palavra. O aluno, mesmo se mais familiarizado com o digital, continua a ser o receptor crítico – activo, decerto, tanto quanto resista à alienação do ecrã (e isto não é certo) –, elemento sem o qual é impossível pensar uma educação de facto.

As razões para que a relação presencial entre docentes e discentes se mantenha e até se fortaleça depois ou durante o tempo de combate à covid-19 são muitas. Três razões me parecem legitimar a defesa das aulas presenciais, mesmo se as escolas e universidades, como virá a ser provável, venham a ser alvo de regime apertado de higienização nos meses que se seguem. Mas, insisto, para que haja um efectivo sistema educativo preocupado com aquilo que Paulo Guinote, reiteradamente, defende, e eu defendo – Educação e Memória –,​ professores e alunos deverão regressar ao seu ambiente natural.

Do 1.º ciclo ao Ensino Superior corre-se o risco de diluir o processo saudável da socialização se quisermos implementar gradual, e sub-repticiamente, um sistema educativo crente, em absoluto, no império tecnológico. Ninguém assume, mas defender a substituição da Escola e da Universidade por plataformas online é ter da educação uma perspectiva desumana e simplesmente economicista. Na essência, a Escola e a Universidade são as instâncias da liberdade e não haverá liberdade futura se – todos em teletrabalho, com horários demolidores, mas iludidos por uma suposta liberdade doméstica – se defender daqui para a frente um ensino virtual. Mesmo admitindo que a violência campeia nos estabelecimentos de ensino, que há um desinteresse generalizado pelas matérias curriculares, devemos defender o ensino presencial. Aliás, esse desinteresse, não será ele a consequência mais óbvia de uma sociedade que levou ao limite a fé na tecnologia? Lamberto Maffei, em O Elogio da Lentidão (ed. 70, 2019), não tem dúvidas: o paradigma tecnológico está a formar uma juventude mais alienada e cheia de raiva, insensível, fruto do pensamento único alicerçado no imediato, na velocidade.

Se não há hoje uma defesa integral dos responsáveis políticos, quer do papel civilizador que cabe ao professor, quer da sua relevância simbólica na sociedade do mercado, não deve haver dúvidas de que, se confinarmos a classe docente (e os alunos) a um ensino em forma de prisão-livre domiciliária, não é só a liberdade que fica em perigo. É a própria democracia e o sentido da civitas que se pode esboroar. As ditaduras sonham sempre com povos obedientes, adormecidos e domesticados e será bom que, por detrás desta pandemia global, não esteja em gestação um sistema educativo que, laboratorialmente, nos prepara para novas sociedades totalitárias. Atenção, pois: o Twitter não é nem pode ser o novo normal, assim como não devemos achar normal que um informático, por muito útil que seja a sua profissão, determine o funcionamento de uma aula de Química ou de História, de Português, de Projecto em Arquitectura ou de Música. Um técnico não terá nunca a retórica do Verbo Vivo que revela, através da sensibilidade feita presença, Camões, Cesário ou Pessoa aos alunos; a teoria da relatividade de Einstein, o esplendor dos planos de Oscar Niemayer, a criatividade da Bauhaus… Filhos da ideologia ditatorial que lhes diz que tudo está no Google, que tudo existe à distância dum clique, ainda assim os alunos querem voltar às suas turmas, aos seus professores e talvez reconheçam – pais e decisores políticos – a importância da presença daqueles a quem coube a digna missão de combater a barbárie.

Como Heidegger nos ensinou em Língua de Tradição e Língua Técnica (Vega, 1993), a liberdade é cerceada pelo aparelho ideológico de Estado quando à palavra da tradição (entenda-se: as artes, as ciências, a música, a História, a Literatura, a Filosofia – supremamente a poesia, segundo o autor) se sobrepõe a língua técnica. Ora, se a actual pandemia nos obriga a recorrer ao tele-ensino, se essa é, para já, a saída para continuarmos a leccionar, não se perca de vista que das duas uma: ou os pais querem um ensino verdadeiramente humanístico, ou os professores, todos eles, defendem a verdade da sua profissão como presença real numa escola e universidade reais, ou no horizonte espera-nos a precarização da nossa profissão. Isso e o empobrecimento intelectual e emocional das crianças e jovens. O que supostamente se ganha em formação tecnológica, perder-se-á em consciência cidadã, em conhecimento histórico-cultural, em alteridade.

Da Retórica Antiga, de Górgias a Aristóteles, de Quintiliano a Vieira, aos estudos, por exemplo, de Roland Barthes, ou de Perelman (Retórica e Argumentação, Asa, 1997) no século XX, é da ordem do truísmo considerar que toda a lição, toda a aula, depende, para a sua eficácia, de quem detenha, na elaboração do discurso, as cinco dimensões retóricas: inventio (escolha dos conteúdos), dispositio (organização dos conteúdos num todo coerente); memoria (faculdade de saber de coração aquilo que se ensina), pronuntiatio, e a acção, ou seja, a voz em consonância com a pessoa (do professor), os gestos em articulação com um pensamento coeso. O que se perde se aceitarmos acriticamente a solução do ensino à distância como panaceia educativa é a própria hipótese de dar aos nossos filhos o convívio com a aura ou a presença de um professor que não seja um formador. É da emanação da razão apaixonada que falo e nenhuma aula online substitui esse poder irradiador da palavra dita, escrita e lida num papel, num livro, e depois comentada, sentida, alvo dum saber e dum sabor plenamente humanos. Nenhuma plataforma substituiria as aulas que tive com mestres que foram e são para mim “presenças reais”. E estas duas últimas razões – a defesa da nossa profissão na escola e nas universidades, presencialmente (!), e a urgência de dar aos mais novos o convívio com o Outro que lhe dá a ver e a ler o diferente – vão ao encontro do que este vírus igualmente nos pede a todos: que não tomemos a nuvem por Juno.

Fonte: Público

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