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Dos comuns da escola

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De facto, ninguém estava preparado para a pandemia e para os seus efeitos devastadores. Se os textos literários já diziam que com a peste tudo fica de pernas para o ar, como escreveu Camus, em meados do século XX, a rutura da normalidade ao nível da escola está a originar problemas que merecem uma análise bem ponderada.

O normal de uma escola é marcado pela conjugação de duas forças contraditórias. A da tradição — na defesa da ideia de que a mudança exige lentidão —, e a da inovação, que traduz o sentido de mudança permanente, acompanhando a evolução do conhecimento e da tecnologia.

Há o comum organizacional, isto é, das regras explícitas e implícitas. Para além de um espaço de tomadas de decisões complexas, a escola é também um edifício de normativos e regulamentos, tão propícios a reformas educativas, em que tudo é pensado ao nível do ínfimo pormenor. Com a pandemia covid-19 este edifício ficou ainda mais complexo e tremendamente preocupante. As imagens de escolas preparadas para o distanciamento físico entre alunos, que circulam pelos media, fazem pensar que afinal Bentham, autor do Panótico, no século XVIII, poderia ter, absurdamente, alguma razão nestes dias tão diferentes.

Uma diz respeito ao conteúdo do currículo ou aos saberes que dão corpo e alma ao dia a dia da escola. A escola não mudará na substância académica do conhecimento, mas a educação para a cidadania poderá ser um espaço de exploração de saberes que melhor respondam aos problemas com que crianças e jovens se confrontam hoje à escala global. Será a educação para a cidadania algo que, a partir de agora, exigirá mais tempo e espaço no currículo das escolas?

A outra mudança está no modo de organização do currículo. A ideia de uma escola sem disciplinas é peregrina, apesar de criar, de tempos a tempos, grandes entusiasmos. Uma escola sem professores também é impossível. Porém, modos de integração do currículo, com saberes explorados interdisciplinarmente, a partir de problemas reais de aprendizagem, é algo que começa a resultar de experiências que vão traçando algum caminho de futuro, mesmo que a sua origem remonte a inícios do século XX, com Dewey.

Há ainda o comum pedagógico, construído mais pela similaridade de práticas ao nível da sala de aula do que por regras ou projetos. Este comum nasce com Coménio, no século XVII, e perdura entre a obrigação administrativa e a autonomia pedagógica ao nível da docência. A mudança é efetivamente forte no modo de ensinar, em que o presencial é substituído por formas diversas de ensino à distância. O não presencial ocupa espaço, mas não é, de modo algum, a mudança que pode alterar o rosto pedagógico das escolas.

O que mais se ouve nestes tempos de pandemia é o cansaço que reina pela ausência do ensino presencial. E de todos: pais, alunos e professores. Colocar na tecnologia a mudança de futuro, em que as práticas de interação sejam definidas à distância, é algo que não condiz com a natureza da própria escola.

O autor escreve segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

Fonte: Público

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