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Dirigido ao Exmº Senhor Rodrigo Moita de Deus – por Artemisa Coimbra

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Em primeiro lugar agradecer à colega Artemisa Coimbra a possibilidade de publicar o seu texto! Obrigado!

Em segundo lugar pedia que lessem e partilhassem o mais possível, temos de conseguir responder cabalmente a ataques desconsiderados!

Dirigido ao Exmº Senhor Rodrigo Moita de Deus como comentário ao seu artigo “uma carta para alguns professores”, publicado no blogue 31 da Armada, em 19.11.17.

Exmº Senhor Rodrigo Moita de Deus,

Agora que assentou a poeira1, permita-me comentar este seu artigo.

Em primeiro lugar, chamar a atenção de V. Exa. para o apodo do nome e do epíteto do seu blogue.

Em segundo, destacar as suas frases: “Os resultados dos alunos nas escolas públicas são miseráveis. Ponto.” e “Um ensino público falido, decadente e descredibilizado. Bonito serviço. Destruíram a escola pública.”

Em terceiro, dar-lhe a saber que, na minha humilde práxis (no sentido aristotélico), após o ministério levado a cabo pelo Dr. Roberto Carneiro, as/os docentes que trabalham quotidianamente em sala de aula não foram, não são, nem irão ser ouvidas/os sobre o currículo e os programas das disciplinas que lecionam, vulgo, operacionalizam.

Em quarto lugar, tecer, com a sua permissão, alguns considerandos:

1. – O currículo nacional, a conceção dos programas e a definição das matrizes curriculares são da responsabilidade do Ministério da Educação português.

2. – Cito: «(…) Pacheco (2001), afirma que o currículo se afigura como: …um projecto, cujo processo de construção e desenvolvimento é interactivo, que implica unidade, continuidade e interdependência entre o que se decide a nível do plano normativo, ou oficial, e ao nível do plano real, ou do processo de ensino-aprendizagem. Mais ainda, o currículo é uma prática pedagógica que resulta na interacção e confluência de várias estruturas (políticas, administrativas, económicas, culturais, sociais, escolares…) na base das quais existem interesses concretos e responsabilidades partilhadas. (…)»

3. – Cito: «(…) Ao percorrer as diferentes e diversas teorias do currículo, o essencial é, segundo Silva (2000), perceber que a “questão que serve de pano de fundo a qualquer teoria do currículo é a de saber que conhecimento deve ser ensinado (…) qual o conhecimento ou saber que é considerado importante, válido ou essencial para merecer ser considerado parte do currículo”.(p.13).

A teoria técnica é, ainda hoje, a teoria que tem maior influência e tradição nos estudos curriculares. Os modelos tradicionais do currículo restringem-se à actividade técnica de como fazer o currículo (Silva, 2000), isto é, a desenvolver técnicas estabelecendo-se na relação teórica/prática uma hierarquia.

Face a este processo organizativo, estamos perante uma lógica burocrática do desenvolvimento curricular com predomínio na mentalidade técnica ligada a especialistas curriculares que salvaguardam a legitimidade normativa da construção do currículo (Pacheco, 2001). (…)»

4. – Cito: “(…) Não tendo [as/os professoras/es e as escolas] no passado [Séc. XX ] tido protagonismo na decisão sobre ensinar, mas apenas na execução de programas, (…) [Roldão et al (1997)]”

5. – A partir do final dos anos 90, ainda do Séc. XX, foram tomadas algumas iniciativas que tentaram ultrapassar a lógica uniformizadora e centralista, como provam vários diplomas legais. Embora a forma como as/os professoras/es lidavam com o currículo fosse influenciada por essa longa tradição centralista portuguesa, com alguma inerente dificuldade, agarraram-nas e implementaram-nas, desempenhando um papel mais autónomo e flexível na gestão do currículo. Contudo, essas e outras iniciativas do Ministério de Educação foram abandonadas pelo velho hábito português de mudança/s de política/s face a mudança/s governativa/s. Mesmo que tivessem estado, estivessem, ou estejam, a resultar! Esqueceram-se, e continuam a esquecer-se, de que “Roma e Pavia não se fizeram num dia.”2

6. – Atualmente (Anno Domini 2017), e depois de muitas alterações ao sabor de quem tem presidido e residido temporariamente (n)o Ministério da Educação, voltam à liça as iniciativas dos finais dos anos 90 do Séc. XX, atrás referidas, embora com outra capa, ou máscara, se preferir. E, extasie-se, divulgadas como e rotuladas de “experimentalismos” por quem (presidentes/residentes (n)o ME) as quer, à tripa-forra, generalizar! Ah, exclama V. Exa.! Finalmente, as/os professoras/es que “são miseráveis” (palavras suas na RTP 3) vão deixar de o ser!

Quanto a isto, apenas uma ínfima exceção: para a adaptação/flexibilização curricular estão previstas, entre outras: a “autonomia” para que se possa adaptar a matriz curricular estipulada pelo Ministério da Educação (por exemplo, disciplinas anuais passarem a semestrais); alterar a ordem dos conteúdos e atribuir diferentes graus de importância aos mesmos, flexibilizando-os numa lógica de projeto que pode ser semanal, mensal, trimestral, …; incluir algumas componentes locais; …, mas… desde que estejam assegurados o respeito pelos programas, conteúdos e aprendizagens essenciais baseadas no perfil do aluno, como hoje, 21 de novembro de 2017, sói dizer-se.

De forma global, para não ser demasiado vocativa, o desempenho quotidiano de um/a docente3 combina cinco atividades didático-pedagógicas ditas tradicionais com outras tantas mais tecnológicas ou digitais, a saber: instrutor/a, tradutor/a (no conceito de Basil Bernstein), disciplinador/a, orientador/a, avaliador/a, coordenador/a, mentor/a, produtor/a de conhecimento (no conceito de Bernstein), aprendente, especialista.

7. – Para terminar, pasme-se com o que li (se me permite o tom exclamativo!): “Do fim da tabela, Portugal passou a estar no segundo grupo de países com melhores resultados no PISA (dados 2015)”. Como disse? É evidente que me ocorreu ser um facto alternativo! Revisito este seu artigo, datado de 19.11.2017, e releio que “Os resultados dos alunos nas escolas públicas são miseráveis. Ponto.” Como podia ser aquilo verdade, perante tão assertivo daltonismo cultural 4?

E para que não fique com dúvidas relativamente ao profissionalismo da classe docente portuguesa, aconselho, não só a leitura, tarefa, possivelmente, mais fácil para quem escreve da forma que o faz neste blogue, como também a análise dos resultados da edição de 2015 dos testes PISA (Programme for International Student Assessment) aqui: http://www.oecd.org/portugal/pisa-2015-portugal.htm (em Inglês, que, no seu perfil, diz dominar);

aqui: https://www.publico.pt/2017/11/09/sociedade/noticia/maus-resultados-estao-a-descer-em-portugal-mas-a-tendencia-na-ue-e-de-subida-1791891 (em Português, que, no seu perfil, nada refere quanto ao grau de proficiência)

e aqui: https://www.publico.pt/2016/12/06/sociedade/noticia/pisa-2015-alunos-portugueses-ficaram-pela-primeira-vez-acima-da-media-da-ocde-1753772 (em Português).

Em quinto e último lugar, este meu “miserável” texto vai, já, longo. Certamente, não se iria dar ao trabalho de ler outras “miseráveis” verdades sobre o que V. Ex.ª disse na RTP 3 e escreve neste seu artigo. Haja Deus5, indignar-se-ia V. Ex.ª!

Por conseguinte, sugiro outra solução, provavelmente inovadora (desculpe se ouso considerar-me inovadora!): convido-o a pensar um pouco fora da sua caixa indignada, compartilhando, com a devida autorização do/a Diretor/a, do quotidiano escolar das/os profissionais da educação de Portugal.

Muito agradecida pela atenção dispensada.

Artemisa Coimbra, Professora (para si, miserável)

P.S.6: Aparecerão palavras sublinhadas a vermelho indicando erro/s ortográfico/s. Como citações que são, têm de ser respeitadas e, como Professora, as diretivas do Ministério da Educação, após a ratificação do Acordo Ortográfico de 1990 por Portugal, em 2008, a isso me obrigam.

Notas:

1 https://www.youtube.com/watch?v=XjGUxif6KE8

2 https://sites.google.com/site/ensinodeportugues/ditados-proverbios-e-expressoes-ideomaticas/roma-e-pavia-nao-se-fizaram-num-dia

3 https://canaldoensino.com.br/blog/qual-o-papel-do-professor-na-sociedade-moderna

4http://www.editoradobrasil.com.br/portal_educacional/fundamental2/projeto_apoema/pdf/textos_complementares/ingles/pai_texto_complementar02.pdf

5 http://expresso.sapo.pt/actualidade/monarquico-constituido-arguido=f530858

6 https://pt.wikipedia.org/wiki/Post_scriptum

Citações consultadas: https://sites.google.com/site/ramirodotcom/home/true/conceitos-sobre-curriculo-e-desenvolvimento-curricular [em 20/11/2017]

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