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Diário de uma Teip – As Desigualdades No Ensino À Distância

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Ao chegarmos ao final deste atípico ano letivo, professores, pais e alunos fazem um balanço do ensino à distância. A maioria dos professores sente-se extenuado, os pais desesperados por terem, durante este tempo, tentado conciliar o teletrabalho com as aulas dos filhos, e os alunos desmotivados porque, por muito que digam que não gostam da escola, estar fechados em casa é muito pior.

Acredito que a grande maioria dos pais fez o melhor que sabia e conseguiu para acompanhar os seus filhos. Mesmo naqueles casos em que o meio socioeconómico não é o mais favorável, em que as competências digitais não vão muito além do Facebook e do WhatsApp, muitos aprenderam ao mesmo tempo que os filhos a usar o Teams, o Classroom, o Zoom e colaboraram com os professores o melhor que podiam, percebendo que esta é uma época de exceção.

Depois vemos os apelos de quem está no Ministério da Educação, na Unicef, comentadores e pseudo entendidos em tudo o que diz respeito à Educação, a dizerem que é preciso compensar as desigualdades sociais, que é necessário recuperar estes alunos de forma a estarem a par dos colegas no próximo ano letivo… Mas o que fazer quando a exclusão não é apenas social ou económica, mas é uma total ausência de valorização da Escola, da Educação, do trabalho dos professores?

Na minha escola, os professores desdobraram-se em contactos com os pais de diferentes formas; só ao fim de várias semanas conseguimos ter um número razoável de alunos na Classroom. Não tinham email, não sabiam criar um, iam pedir ao filho mais velho, à vizinha, que o telemóvel é da mãe ou do pai, não é para fazer trabalhos, que se partiu e agora só têm um de teclas, ouvimos todo o tipo de desculpas… Depois, alguns pais continuaram a não conseguir/querer aceder à plataforma porque era complicado, e os professores continuaram a enviar tarefas por email, whatsApp, messenger, mensagem escrita, telefonemas diários, fotocópias entregues diretamente aos alunos, a assistente social e o mediador sociocultural a tentarem agilizar contactos, as professoras de apoio a tentarem acompanhar os alunos que não tinham acesso a nenhum tipo de equipamento, mas que também não viam as aulas do #EstudoEmCasa porque estavam a dormir. A queixa mais frequente era a falta de computador (na minha turma existiam 4 alunos com computador e não era a pior), que fazer os trabalhos no telemóvel era muito complicado, as impressoras inexistentes. Novamente os professores tentaram adaptar as tarefas para facilitar a possibilidade de realizarem o trabalho, e nem assim. Finalmente recebemos a notícia que os alunos com escalão A ou B (a quase totalidade dos alunos da escola) iam ter acesso a um computador emprestado pela Junta de Freguesia ou pela Câmara Municipal… Ficámos esperançosos de que a maioria das questões se iriam resolver e conseguiríamos trabalhar em pleno no último mês de aulas. Qual não foi o nosso espanto quando fomos informados que grande parte dos encarregados de educação recusaram o computador porque não é dado, tem de ser devolvido no final do mês. Aí recomeçaram as desculpas, que não assumem a responsabilidade de o entregar em condições, que já falta pouco para acabar o ano, não vale a pena, que até foram buscar mas está na caixa guardado para não se estragar…

E são estes pais os que normalmente mais reclamam se os professores faltam e não enviam trabalhos de casa, ou porque a escola tem de fechar para retirarem o amianto… Para estes pais, a Escola tem apenas a função de depósito, é uma forma de irem trabalhar ou para o café sossegados. O ensino, as aprendizagens não são valorizados, são apenas uma forma de manter o RSI, os abonos, de terem refeições e manuais à custa de todos nós. E os professores, porque são excelentes profissionais e tentam sempre chegar a todos os seus alunos, desanimam, esmorecem, baixam os braços em desalento… Sentem que passaram estes meses numa luta inglória pelos seus alunos. Mas em setembro cá estaremos, com a mesma vontade, com o mesmo profissionalismo, a dar tudo por tudo, porque não é preciso vir ninguém dizer-nos que os nossos alunos não podem ficar para trás!!

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