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Deixem-nas respirar! – Eduardo Sá

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“- Mãe, nos velhos tempos, quando íamos ao parque…” foi, num destes dias, um desabafo de um dos meus filhos, mais pequeninos. E se a mim já me preocupa que, para uma criança, o “ontem” tenha dado lugar aos “velhos tempos”, que ele escutou em alguém, já me sobressalta que ir a um parque se perca numa espécie de passado tão remoto que se assemelhe ao antepassado do “ontem”. Aos “velhos tempos”!

 

No meu ontem, a mim, já me alarmava a forma como nós – ao mesmo tempo que afirmávamos (e repetíamos) que o melhor do mundo são as crianças – permitíamos que elas tivessem, cada vez, menos direito à infância. Sobretudo quando escutava imensos pais a afirmar que a sua infância terá sido, nos seus velhos tempos, mais amiga da rua, mais livre e mais feliz. Por isso mesmo, no nosso hoje, pergunto-vos o que andamos nós a fazer das crianças, a pretexto de as protegermos?

 

Se já não bastava que quase fujam quando um adulto se cruza com elas e lhes sorri (!!); se não fosse já estranho (e esquisito) que haja escolas a pedirem para que as crianças levem telemóveis para as aulas de forma a que não corram e não brinquem; e se não fosse já obsceno que muitas crianças, na escola, almocem no recreio, ao ar livre, usando o chão e, por vezes, de guarda-chuva aberto (!!); privá-las, em nome da saúde, dos parques infantis é grave! E é grave, para mais, quando não se vê nem quem dirige a saúde nem quem preside às autarquias a encontrarem formas das crianças terem direito aos seus parques infantis. Para que tenham direito a correr. A brincar. A pendurarem-se num baloiço. E a terem uma aragem, quase inconveniente (nos tempos que correm), de liberdade.

 

Não, a infância dos nossos filhos não deixou, hoje, de ser urgente e inadiável! Exige o ar livre. Exige o exercício físico. Exige a relação com o espaço público. E exige o brincar!

 

Por isso mesmo, a infância não merece parques infantis com fitinhas vermelhas. Nem entidades públicas a desaconselhar as crianças de usarem a infância; muito menos, em público. Nem esta indiferença das autarquias em relação a práticas que permitam vigiar e higienizar os parques infantis. Como se todos convivêssemos – sem direito à indignação – com esta recomendação subtil que, para além de aconselhar distanciamento aos nossos filhos, lhes parece dizer e repetir: “Crianças: pela vossa saúde, não usem a infância!”.

 

Por favor: deixem-nas respirar!

Eduardo Sá

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