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Como é a vida nas escolas que nunca fecharam

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Silêncio, ordem, nenhuma gargalhada ou birra audíveis. Os cabides onde ficavam penduradas as dezenas de mochilas, casacos e lancheiras estão quase vazios, as salas de aula têm só as mesas, nenhuma cadeira à volta. No parque exterior vê-se uma dezena de triciclos encostados a uma esquina, sujos de não terem crianças a usá-los. A Creche Santa Teresinha do Menino Jesus, na Amadora, deixou de receber crianças de colo e reconverteu-se em escola de acolhimento para filhos até aos 12 anos dos profissionais essenciais que trabalham na linha da frente. Toda a gente teve de se readaptar.

Com os olhos brilhantes das lágrimas que não chegam a cair, Maria João Morgado, 49 anos, recorda o dia em que a covid-19 a obrigou a aprender à pressa uma nova forma de ser educadora de infância: uma das meninas que recebeu na primeira manhã deste novo mundo saltou-lhe em voo para os braços assim que a mãe virou as costas. “Eu só pensava que não a devia abraçar. Ai, e agora o que é que eu faço? Contei logo à mãe, mas, desculpem-me, eu não vou deixar de estender os braços e impedir que uma criança me abrace. E soube tão bem. Que saudades.” Os beijos, acalmar uma criança com um abraço, limpar com as mãos as lágrimas de uma birra, embalar para adormecer, nada disso se pode fazer agora.

<span class="arranque">Cuidados redobrados numa creche em tempos de pandemia </span>Quando entram, as crianças deixam os sapatos que trazem num sítio específico e calçam estes, que não levam para casa e que são só para usar na creche. As educadoras fazem o mesmo, porque tudo é feito a pensar em formas de impedir que o vírus entre na creche

À entrada ficam os casacos, os sapatos, enfiados num armário feito com cassetes VHS empilhadas — e os pais. As mãos são logo desinfetadas e só depois é que cada um segue para a respetiva sala. Quase nunca há mais do que quatro crianças por sala e são sempre os mesmos nas mesmas salas, com as mesmas educadoras, para ser possível identificar o foco de uma eventual infeção. Chegaram a vir para esta creche cerca de 60 crianças por dia, mas agora a lotação é de 16. Como esta, há outras 86 creches e mais de 700 estabelecimentos de ensino no país a cumprir a mesma função, segundo números facultados ao Expresso pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

TELESCOLA DE MÁSCARA

São 9h30 e está a começar a primeira aula da telescola. Os quatro mais velhos do grupo sobem para o primeiro andar do edifício adjacente à creche, a Escola EB/1 Aprígio Gomes, que agora está sem aulas. Equipam-se com luvas e máscaras e preparam-se para dar início à aula de Expressão Artística. Maria João e as crianças seguem os passos das professoras que estão no ecrã da televisão a ensinar a importância de mexer o corpo. Fazem alongamentos ao mesmo tempo, deitam-se no chão, levantam uma perna, mantêm-na no ar, deixam-na cair. O mesmo com os braços.

Para os mais pequenos, o total reajuste social que esta crise provocou nas suas famílias, no país inteiro, não é tão percetível, mas para Diogo Carvalho, de nove anos, é diferente. Os pais são ambos técnicos do INEM. “Tenho noção de que os meus pais trabalham nas urgências, que o meu pai conduz muitas ambulâncias e que a minha mãe fala ao telefone com pessoas que estão doentes. Antes perguntava o que é que se tinha passado com as pessoas que eles levavam na ambulância, mas agora acho que já sei as respostas e deixei de perguntar.”

VOLTAR A DAR ABRAÇOS? “POR MIM, NÃO”

Cristina Santos, mãe de Gabriel, com dois anos e meio, explica que, como é auxiliar ao domicílio dos idosos identificados pela Santa Casa da Misericórdia da Amadora, não pode nem quer deixar de trabalhar. Tenta que o filho não a veja com o fato de proteção total que usa no trabalho. “Deixei-o aqui e agora vou a casa vestir-me, vou trabalhar, depois vou a casa, tomo banho e só depois é que o venho buscar.” Uma história repetida à pressa pela mãe de Melanie, a menina do abraço voador, a quem nem apanhámos o nome porque tinha de ir a correr a casa buscar todo o equipamento e depois seguir para Lisboa, onde é enfermeira num serviço da Santa Casa. O pequeno Gabriel não entende tudo à sua volta, mas sabe que não vai com tanta frequência ao parque. “Ele perguntou-me tantas vezes porque é que não saíamos que eu tive de inventar uma história e dizer que havia uma raposa à solta, pois já não sabia o que havia de dizer. Quando vou às compras, quando o deixo aqui, às vezes diz: ‘ó mãe, não vás para a rua, olha a raposa’, e grita, quando vê da janela meninos na rua: ‘ó meninos, cuidado com a raposa’. Não sabe o que é um vírus, mas sabe que há um perigo à solta”, explica Cristina Santos.

Tiago, 12 anos, chega com os dois irmãos: Leonardo, de sete, e David, de quase nove. São tímidos, parecem animar-se quando lhes perguntamos se não querem ser youtubers. Só Tiago fala, pouco, mas diz o essencial: “Tenho medo de que os meus pais apanhem, sinto-me triste.” A avó, Ana Paula Gomes, de 56 anos, conta que Tiago está bastante desassossegado com o vírus. “Chega àquela hora em que eles dão os números e ele diz logo: ‘ó avó, olha, morreram estas pessoas todas’.” Na semana em que os meninos ficam com a mãe, que trabalha na desinfeção de espaços municipais, é a avó que os leva. O primeiro dia foi difícil: “Ele disse-me: ‘avó, estou cheio de dores de barriga’, e eu expliquei que eram nervos, mas ele é muito preocupado com a família e está sempre a avisar para não tocarmos nos corrimãos.” Tiago, as pessoas vão voltar a abraçar-se logo que puderem? “Não sei, mas por mim não logo”, diz, um pouco envergonhado. “De qualquer forma, agora não podemos.”

Fonte: Expresso

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