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Com cada vez mais turmas em isolamento voltam as aulas online

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Numa escola onde as turmas estão no limite máximo e as carteiras têm mesmo de acolher dois alunos — sem o recomendado afastamento de metro e meio —, a sala onde Deolinda Marques dá aulas é das poucas onde a falta de espaço não é um problema por estes dias. Sentada na sua secretária na Secundária da Portela, em Loures, tem à sua frente 14 mesas vazias e ao lado um quadro em branco. Os alunos daquela turma do 11º ano estão desde o dia anterior em casa, a cumprir isolamento por ter surgido um caso positivo no grupo.

 

Nas próximas duas semanas será assim que Deolinda Marques vai dar Matemática Aplicada às Ciências Sociais. Numa sala vazia, debruçada sobre o tablet onde vai escrevendo os exercícios e a ver os alunos em janelas do Zoom. “Quem tem, ligue as câmaras”, vai pedindo ao aperceber-se de que há demasiados quadrados a negro.

 

Ao fim de um mês de aulas, foi como se a professora regressasse ao passado ano letivo, quando o ensino passou a ser à distância. Com duas diferenças. Deolinda está na escola, porque é também lá que estão as suas outras turmas. E as permanências em casa estão agora reduzidas a períodos de 14 dias, ao fim dos quais, se tudo correr bem, os alunos regressam. Ainda assim, avisa, este também não vai ser um ano em pleno, provavelmente para a maioria dos alunos. Ao fim de poucas semanas, já há estudantes que perderam várias aulas presenciais. Uns por terem indicação para isolamento, outros porque ficaram em casa por precaução, por estarem simplesmente constipados numa altura em que todos os cuidados são necessários. “Os desfasamentos que vai haver, sobretudo em disciplinas com exames, preocupam-me”, diz.

 

Noutra sala, António Carapinha prepara-se igualmente para dar um novo modelo de aula. À sua frente, o professor de Geometria Descritiva terá nove alunos de uma turma e no ecrã do computador mais dez de outra que está em isolamento. “Tu ficas aí confinado entre o quadro e a mesa (onde foi colocada uma câmara que filma a aula e transmite para casa)”, brinca a subdiretora, enquanto ajuda a fazer os testes de som e imagem.

 

De norte a sul, em cada vez mais escolas é esta a nova rotina, com idas para casa, à vez, de alunos, turmas, professores, funcionários. Tenta-se evitar ao máximo o fecho da escola e tudo o que correu mal no ano passado, desde o acentuar das desigualdades entre quem tem e não tem computador, internet de alta velocidade e pais a ajudar, até às dificuldades de garantir a aprendizagem e motivação de quem está à distância. Mas, em última instância, é a evolução da epidemia que é decisiva. Na sexta-feira e devido ao crescimento de surtos em Vila Viçosa e Borba, as autoridades de saúde determinaram o fecho temporário de todas as escolas dos dois concelhos. Os alunos passam todos para o ensino à distância.

 

AINDA FALTAM COMPUTADORES

 

“Claro que não é a mesma coisa ensinar alunos que estão à nossa frente ou que estão em casa. No meu caso, só posso usar os desenhos projetados. Se todos estivessem aqui podia simular com um objeto real na mão”, exemplifica o professor de Geometria Descritiva, antes de dar ordem de entrada. Uns entram pela porta; outros pelo ecrã do computador. “Pessoal aí de casa, há dúvidas?”, vai perguntando. “O objetivo é tentar que todos tenham as mesmas condições.”

 

Com 2700 alunos em todo o Agrupamento e alguns a não terem acesso aos equipamentos necessários ao ensino à distância, foi a associação de pais a lançar uma campanha de angariação de fundos e a conseguir em dias €14 mil para a compra de mais de 100 tablets e computadores. A autarquia ajudou na compra de acessos de internet e câmaras para usar nos computadores, conta o diretor, Nuno Reis.

 

Quanto à entrega de equipamentos a todos os alunos do país, que chegou a ser prometida pelo Governo para setembro, está agora previsto que os primeiros computadores, para alunos mais carenciados, cheguem na primeira quinzena de novembro.

 

PAIS E DIRETORES EM STRESSE

 

Na Secundária Manuel Cargaleiro, no Seixal, foi necessário recorrer ao orçamento da escola para comprar câmaras para acoplar aos computadores velhinhos da escola e transmitir assim as aulas para casa. “Felizmente, até agora apenas um ou dois professores tiveram necessidade de o fazer. E damos o apoio necessário com recurso às plataformas que já usámos no ano passado, colocando lá materiais e fichas para irem realizando”, descreve a diretora, Maria de Lurdes Ribeiro.

 

Se o último ano letivo teve alguma coisa de positivo foi o facto de ter permitido aos professores treinarem métodos de ensino à distância e familiarizarem-se com aulas online. Quanto aos alunos, voltaram este ano a mostrar a sua capacidade de adaptação: às novas regras em sala de aula, nos recreios, à entrada e saída ou à hora da refeição. “Aqui dentro, a maioria cumpre as regras. O problema é que quando saem começam logo a tirar as máscaras”, lamenta a diretora.

 

Já para muitos pais, o regresso dos filhos à escola tem sido mais complicado. “Estão muitos ansiosos e que querem esclarecimentos. É natural”, reconhece Maria de Lurdes Ribeiro. A experiência é partilhada pelo diretor do Agrupamento da Portela, que fala num ano a correr razoavelmente bem até agora, mas com doses acrescidas de stresse diário: “São muitos telefonemas, muitos e-mails dos pais com dúvidas e também muitos boatos a correr.” Ali, optou-se por fazer uma informação semanal para os encarregados de educação ficarem a saber quantos professores e funcionários faltam e ainda uma espécie de balanço epidemiológico. “Neste agrupamento, há cerca de 70 alunos em isolamento, dos quais 15 por terem testado positivo ou terem familiares infetados e os restantes por integrarem turmas em que houve um caso positivo. Temos o compromisso da delegada de saúde de que todos serão testados”, refere a informação desta semana.

 

“NADA DE SAIR À RUA!”

 

A questão da comunicação entre a escola e os pais tem sido uma das preocupações neste início de ano letivo. No Agrupamento Rainha Dona Leonor, em Lisboa, registaram-se já casos nas várias escolas, originando queixas e dúvidas entre os encarregados de educação. Ou por demora nas orientações das autoridades de saúde ou porque as alternativas de ensino não foram logo garantidas ou foram diferentes entre escolas. Uma turma do 3º ano foi para isolamento por haver um caso positivo entre os alunos, mas quando terminou esse período algumas crianças mantiveram-se em casa, ao aperceberem-se que a professora tinha adiado o regresso por estar com sintomas. Os que voltaram tiveram aulas com os docentes de apoio; os que não voltaram continuaram com as aulas online com a sua professora. “As escolas têm de ser capazes de garantir um sistema misto, em que uns alunos aprendem em casa, outros na escola, mas acedendo aos mesmos conteúdos”, argumenta uma mãe. A direção garante, por seu turno, que a todos os estudantes é garantido apoio.

 

Na Portela e enquanto a turma ainda em isolamento aguarda autorização para voltar, fica a despedida e o aviso da professora Deolinda: “Beijinhos, até segunda-feira e nada de sair à rua.”

 

10 OU 14 DIAS?

 

Caso positivo

 

Os infetados sem sintomas ou com sintomas ligeiros podem deixar o isolamento ao fim de 10 dias, sem necessidade de realizar novo teste, desde que não tenham febre durante três dias consecutivos. Antes só tinham alta ao fim de 14 dias, mas a DGS atualizou a norma, que vale para todas as situações, incluindo para a comunidade escolar.

 

Contactos de casos

 

Uma pessoa que tenha tido uma exposição de alto risco a um infetado tem de ficar em isolamento durante 14 dias. A necessidade de fazer teste “pode ser considerada” pelas autoridades de saúde”, sobretudo em casos de exposição prolongada e “espaços fechados e pouco ventilados”.

 

Número de surtos

 

Segundo a DGS, quarta-feira havia 49 surtos em estabelecimentos de ensino, com um total de 449 casos, num universo de oito mil escolas e 1,6 milhões de alunos do pré-escolar ao secundário.

Expresso

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