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“Carta de amor aos professores da primária, especialmente aos meus”, por Vera Dias António

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Antes de começar, um parêntesis, para dizer que este ano posso escrever sobre os professores da escola primária pois, pela primeira vez em 9 anos, não tenho nenhum dos meus filhos neste ciclo. Os meus três rapazes já passaram esta fase e a minha menina ingressa no jardim-de-infância.

Assente este ponto, e porque começa esta semana uma fase nova para milhares de outras crianças, num contexto totalmente anormal, os votos de que as marque de forma positiva, apesar de tudo.

Começando ao que venho, dizer-vos que tive dois professores na escola primária, nos cinco anos que a frequentei. Sim, 5 anos, pois esta que vos escreve teve o azar, ou a tremenda sorte, de chumbar na 2.ª classe. Hoje digo-o cheia de graça, mas na altura não teve graça nenhuma. Agradeço, apesar de tudo, o mundo novo a que os meus dois professores me levaram.

Lembro-me perfeitamente do meu 1.º dia de aulas. Não tinha frequentado o jardim-de-infância, conhecia duas colegas, porque eram minhas vizinhas e só levava aquelas duas amigas. Lembro-me de olhar, muito assustada, a escadaria imensa que, vai-se a ver, e são só cinco degraus. Uma das minhas amigas pegou-me pela mão. E lá fui.

Uma das melhores memórias que guardo é a daquele cheiro a escola primária, que sai das mochilas, uma mistura de papel, cola e aquele cheiro único de quando se afiam os lápis de pau. Quando voltei a reconhecer esse cheiro nas mochilas dos meus filhos foi, acreditem, absolutamente mágico.

Mas dizia eu que o começo foi a medo mas depressa me integrei. O meu primeiro professor tinha dois fascínios que nos tentava legar. O da música, que me aborrecia imenso, e o da tipografia. O meu professor tinha uma mesa de tipografia com uma máquina cuja forma associo a uma tostadeira, e várias gavetas de letras/carimbo, também de metal, como as da imagem que ilustra esta crónica. Quando fazíamos uma composição que o merecesse “imprimíamos” o texto. Tive essa sorte!

Lá dentro, juntávamos letra a letra, da direita para a esquerda formando as palavras, com espaço, e as linhas, uma por baixo da outra, num processo que me encantava. Depois passávamos um rolo de tinta, colocávamos a folha branca em cima e baixávamos a tampa. Quando abríamos, retirávamos a folha, já impressa, com o nosso texto.

Se na música o resultado foi nulo, na escrita este há-de ter sido um legado maravilhoso, que ainda hoje me marca, pois não encontro outra explicação para o prazer que me dá ver uma folha de texto impressa.

Lembro-me, também, que as únicas alturas em que o professor faltou foi quando teve que ir a Lisboa comprar letras para a pequena tipografia. Dias santos!

Recordo-me também muito bem, muito bem mesmo, do dia em que saí de casa para ir a Mação buscar as notas da 2.ª classe. Saí pela porta de trás da casa dos meus pais e encontrei o meu tio Luís, irmão da minha avó, que em tom de gozo me disse: “Vais buscar a raposa?”. Ao que respondi com uma sonora gargalhada: “Isso é que não”. Mas fui.

Foi um dia muito estranho, nas notas não era referido qualquer problema de aprendizagem mas, no final, dizia: ”Não transita”. Li, reli, dei a ler. Confirmava-se.

Foi um ano atípico, chumbámos muitos, quase metade da turma, se bem me lembro. Houve reuniões de pais, pais muito zangados, muitas questões no ar, alguma fúria. Não mudou nada. Reprovámos por motivos vários, desde a baixa estatura, à negligência que o professor encontrava em deixar entrar crianças na primária sem os 6 anos feitos, o que era o meu caso, que nasci no final de outubro.

Quando repeti a 2.ª classe e nos dois anos seguintes conheci aquela que, para mim, personifica o que deve ser um professor da primária. Doce, compreensiva, dedicada, mas com pulso forte e muito exigente. Lembro-me tão bem dos seus elogios como das vezes que me ralhou. E lembro-me muito bem de uma altura em que tive mais dificuldades numa matéria e em que pediu à minha mãe para eu ficar na escola depois das aulas e, enquanto aquilo não me entrou, ela não descansou. Nem todos são assim. Ah! Eram as contas de dividir, o degredo!

Guardei esta querida professora sempre comigo. De facto, quando terminei o curso foi uma das pessoas a quem tive o cuidado e o prazer de levar uma fita para assinar. E uma vez mais a minha querida professora superou-se. Devolveu-me a fita e, com ela, uma folha A5 pautada onde se lê: “Mação, 6 de junho de 1989 – Auto avaliação”. Foi neste dia que fiz a auto-avaliação da 4.ª classe, a minha professora tinha-a guardado e naquele dia devolveu-ma. Um gesto para o qual não tenho palavras suficientes e que acabou por encerrar, de uma forma especial, o meu percurso escolar.

Com este texto e a exposição da forma como me marcaram os meus dois professores da primária há uma nota que quero frisar, que é o facto de que coisas aparentemente negativas podem mudar e marcar a nossa vida para algo muito melhor. Claro que é preciso crescermos e compreender, ou fazer essa leitura.

Mas hoje, meus caros, olhando para trás, vejo que o meu percurso escolar, raposa incluída, foi o melhor que me podia ter acontecido. Sem romantismos bacocos. Foi mesmo.

Acima de tudo porque desencadeou uma série de acontecimentos que alteraram de várias formas a minha vida. Dou dois exemplos. No ano em que passei para o 10.º ano foi, muito excecionalmente, um dos raros anos em que não abriu área de humanidades em Mação. No ano anterior, no “meu” ano, teria continuado a estudar em Mação. Mas aquele ano atípico levou-me até ao Liceu de Abrantes, algo que nunca tinha sido sequer equacionado em casa. Mas as opções em Mação eram as ciências, o desporto ou a economia, pelo que o caldo estava bastante entornado.

Em Abrantes havia não só humanidades como, o sonho, o curso profissional de Comunicação onde tive professores absolutamente extraordinários. Não que em Mação não os houvesse, mas guardo memórias muito boas de alguns. Particularmente dos que me fizeram compreender que não poderia fazer outra coisa na vida, que escrever. E particularmente o que me aconselhou que curso seguir, disciplina que em Mação não existia e que dificilmente equacionaria. Decisão que veio marcar novamente a minha vida, de muitas formas. Além dos professores, as amizades que fiz e as pessoas que conheci e que me fizeram olhar com o maior dos respeitos para a comunicação regional. Uma dessas pessoas criou mais tarde, com a irmã, este espaço em que vos escrevo. Para verem as voltas que a vida dá!…

Penso até no ano exato em que entrei na universidade e em cada pessoa que conheci. A questão é que se não tivesse chumbado tudo teria sido diferente. Se podia ter sido melhor? Talvez. Mas eu olho com olhos brilhantes e sorriso forte para tudo o que a vida me trouxe, onde me trouxe. Então, só posso agradecer.

Um chumbo ou um ano atípico não são o fim do mundo. Tenhamos fé.

Uma nota final para sublinhar a importância dos professores da primária na vida de cada um de nós. Todos temos, de certeza, a memória, uma história e sabemos-lhes os nomes. Todos temos um trauma, claro… mas algo de bom a dizer. Tudo nos marcou e fez de nós quem somos. Não lhes devemos tudo, mas temos muito a agradecer-lhes.

Espero que, com esta consciência, tenham os professores a noção do peso e da marca que deixam na vida dos seus alunos. Este ano é de maior exigência, que não lhes faltem as forças para que as vidas das nossas crianças sejam de alegria e vitórias.

Que tenham brio, orgulho no que fazem, determinante para os futuros adultos que estão a formar. Que saibam que têm uma das mais importantes profissões do mundo.

Um beijinho muito especial aos professores da primária do meu mundo, Carlos e Carmita!

MedioTejo

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