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“Carta de amor à educação”, por Vera Dias António

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Entrámos em setembro, o mês dos regressos, dos recomeços, dos ingressos e do nariz torcido ao fim das férias. Entrámos em setembro e prepara-se um novo ano letivo, rodeado de incertezas, medos e novas formas de segurança e funcionamento por causa desta pandemia que veio trocar as voltas ao mundo.

Ainda pouco se sabe mas quero acreditar que os medidas tomadas serão adequadas e o respeito e a boa prática das mesmas será fundamental para que tudo se alinhe. Não vai correr tudo rigorosamente bem, mas anseio que corra tudo pelo melhor que nos for possível, a todos.

Ainda assim, não é sobre estas mudanças que vou falar, quero ir mais atrás, àquilo que é a educação e como a vemos.

Não sei se vos aconteceu, a mim sim, e creio ser esta a tendência. Percebemos, quando crescemos, que podíamos e devíamos ter aproveitado mais o tempo em que fomos alunos, estudantes. Não que me tenha saído mal. Mas penso muito no que me escapou, na água que não bebi, nos pormenores de muitas matérias que, se lhes tivesse prestado mais atenção, saberia hoje muitas outras coisas sobre a vida e o mundo.

Como disse em cima entrámos em setembro, o mês do nariz torcido o fim das férias e o enfado do regresso à escola. Acredito que há crianças e jovens felizes e ansiosos por mais um ano, mais uma oportunidade de se agarrarem aos livros, ao saber, à aprendizagem, mas não são a maioria, parece-me.

A culpa é muito nossa, cultural, pesada. Somos muito nós que tendemos a apontar a escola como um dever, um monte de deveres, um cansaço. Como disse, é cultural. E o acesso à educação não é um dever, é um direito.

Só esta diferença de entendimento e atitude mudaria tudo.

Eu vi durante muito tempo a escola como uma obrigação. E nós, humanos, não gostamos desse sentimento. Porque ansiamos a liberdade. Acontece que liberdade e educação são ambos direitos e encerraram ao longo da história muitas lutas, tratados e convenções para que o fossem. São algo a que temos direito.

Como é que um jovem anseia tanto ser livre e não anseia receber educação?! Porque andamos todos enganados na forma como vemos a educação. Poder ter acesso ao ensino rodeia-se de um manto de imposições. Nós, com os nossos medos, anseios e expetativas criamos uma neblina em redor da educação e não deixamos que os nossos filhos e alunos percebam a maravilha que é ter o direito à educação, a frequentar uma escola que vai dar informação e conhecimento que vai permitir ter e fazer uma vida melhor. E por melhor não estou a dizer “tira um curso e terás uma vida melhor”, não. O que estou a dizer é que quanto mais bem informados e formados, mais fácil se tornam as tarefas e a própria vida e melhor se torna o mundo.

Não queremos ser ignorantes, nunca fez bem a ninguém. E há países em que se quer que o povo seja ignorante, ou em que as raparigas são vistas como um ser de segunda que não precisa ter acesso à educação. Por isso escolhi a foto da Malala para ilustrar esta crónica.

Para quem não conhece, esta jovem paquistanesa vivia numa região do Paquistão tomada pelos Talibãs que proibiram as meninas de ir à escola. Criou um blog com 11 anos e denunciou a situação que foi referida na imprensa internacional. Um dia o autocarro escolar em que seguia foi mandado parar e deram-lhe três tiros na cabeça. Sobreviveu, recuperou e é porta voz de uma causa – o direito à educação. Resumidamente é isto.

Mas é a génese de tudo isto que nos devia tocar, há efetivamente crianças que não têm acesso à educação e nós temos hoje o privilégio de ter este direito. E o que fazemos?! Vemo-lo como uma chatice de todo o tamanho. Nós, alunos, mas também muitos pais e até alguns professores. Não se trata de um fardo, trata-se de algo muito superior a todos nós, como a própria liberdade. Aliás, é uma forma de liberdade.

A educação no que ao ensino diz respeito está legislada, é um dever dos pais e do Estado que o acesso ao ensino seja uma realidade. Depois, enquanto seres em formação, a educação e o acesso ao ensino público é um direito. Noutros países não é.

Serão talvez, por vezes, os muitos formalismos à volta das questões que as tornam aborrecidas.

Perdemo-nos do essencial.

Alguém disse que “o pior vírus é a ignorância e a estupidez do ser humano.” Ver a educação como um fardo é uma forma de violência extrema. E ter o direito à educação é a possibilidade de sabermos mais, de sermos pessoas informadas, de sermos melhores seres humanos. O mundo só tem a ganhar. Todos nós ficamos a ganhar.

Se calhar o maior problema na forma como vemos o ensino, é que falta alegria.

Neste setembro dos regressos, dos recomeços e dos ingressos em que uma pandemia nos faz temer e recear vários aspetos vida, pensemos no bom que é poder trazer mais saber e conhecimento à nossa vida.

Muitos marcos da vida começam, celebram-se em festa, pela alegria do que aí vem. Na escola conclui-se o ano em festa. Pela alegria do que se conquistou mas, muito, porque este já está, venham as férias. Talvez se deva começar o ano com uma grande festa, comemorar o que aí vem. Este ano não se pode fazer grandes festas. Mas em casa e em cada um, que assim seja. Com alegria!

MedioTejo

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