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Aulas à distância geram desconforto

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Ao longo dos últimos três meses, várias vezes se disse que o ensino à distância — via Zoom, e-mail ou WhatsApp — foi a forma possível de garantir que o ensino continuava num cenário de escolas fechadas. Mas possível não é sinónimo de eficaz. Num inquérito realizado junto de alunos que têm problemas de insucesso, metade disse estar “pouco” ou “muito pouco confortável” com a nova forma de aprender que acompanhou todo o 3º período. Uma percentagem ainda maior (56%) respondeu não estar à vontade nas avaliações feitas online.

Os resultados constam de um inquérito respondido por 2073 alunos do básico e lançado pela plataforma Empresários pela Inclusão Social (EPIS), criada para ajudar a combater o insucesso escolar.

Com 182 mediadores a trabalhar em quase 300 escolas de quatro dezenas de concelhos no continente e também em ilhas dos Açores, o objetivo foi perceber as condições em que estes estudantes, já por si mais vulneráveis, iriam passar a aprender à distância e que contacto podia ser mantido pelos técnicos que os acompanham, explica o diretor-geral da EPIS, Diogo Simões Pereira.

Em primeiro lugar, era preciso saber quem tinha ou não computador, sabendo também que muitas famílias estavam a perder os empregos ou a ser colocadas em lay-off e a perder rendimentos, que, já sendo baixos, dificultavam ou impediam a compra de equipamento informático. Da campanha lançada pela EPIS junto das empresas parceiras e outros doadores individuais conseguiu-se arranjar já mais de 300 computadores para alunos do 2º ciclo ao secundário.

Do inquérito realizado verificou-se que no 3º período 29% não tinham qualquer computador e que 27% tinham de o partilhar com os pais em trabalho remoto e/ou com os irmãos em idade escolar. Ou seja, menos de metade dos alunos possuía um computador só para si, que lhes permitisse assistir às aulas online ou fazer trabalhos e pesquisas.

“O grande problema neste modelo de ensino à distância é a exclusão social através da exclusão digital. Além dos que não têm computador, há também quem não esteja habituado a trabalhar com estes recursos”, alerta Diogo Simões Pereira.

Outra das dificuldades encontradas pelos mediadores da EPIS manifestou-se também na resistência de muitas famílias em manter uma relação com os técnicos e até com os professores. “20% a 30% dos agregados nas nossas bases de dados responderam que não queriam ser contactados. Entendiam que, se a escola fecha portas, então tudo para. E este trabalho de mudar as mentalidades é muito difícil.”

As dificuldades em manter a ligação durante os estados de emergência e calamidade traduziram-se depois na redução de alunos a serem acompanhados pelos mediadores, que trabalham com os jovens métodos de estudo e o desenvolvimento de atitudes e competências.

Do total de 5500 estudantes do ensino básico que tinham este apoio, 42% acabaram por perdê-lo. “O problema é que, se calhar, entre os que ficaram de fora encontram-se os que necessitavam mais de apoio”, admite Diogo Simões Pereira.

Quanto ao contacto com a escola, os dados da EPIS revelam que a grande maioria passou pelo e-mail, seguido de plataformas como o Zoom ou o WhatsApp ou das plataformas das próprias escolas. As mensagens de voz e sms foram também uma via importante para um terço dos alunos. E houve ainda estudantes cuja interação com a escola e os professores passou pela recolha e entrega de fichas em papel, com muita pouca interatividade. Houve 6% de inquiridos a reportarem este meio de contacto.

Perante todas as dificuldades e particularidades, Diogo Simões Pereira acredita que, no que respeita à avaliação, este ano haverá alguma “generosidade” e compreensão dos professores em relação a estes alunos. E que o futuro dependerá muito do que se conseguir recuperar a partir de setembro e de ser ou não possível regressar ao ensino presencial, o que depende da evolução da pandemia. “Num modelo de ensino à distância, os alunos mais atrasados terão tendência para se atrasar ainda mais. Se são jovens já difíceis de motivar, muito mais será através do computador. Há toda uma gestão da turma e de utilização de linguagem não verbal que é muito complicada de fazer pelo Zoom. Tudo se verá e tudo se jogará no próximo ano letivo.”

Dito isto, o diretor-geral da EPIS faz questão de elogiar o muito que foi feito pelos professores, que se multiplicaram em plataformas e canais de comunicação para tentar chegar aos seus alunos. “O país já reconheceu o esforço feito pelo pessoal de saúde, mas não reconheceu ainda o trabalho dos professores.”

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