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Aos professores – Ernesto Areias

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Em meados de outubro de 2020 foi assassinado, em França, por decapitação, o professor Samuel Paty. Escolheu o homicida uma forma simbólica de o eliminar. Ao decapitar um professor conseguiu decapitar simbolicamente a liberdade e a identidade da cultura ocidentais.

Samuel Paty leccionava História e Geografia em Conflans-Sainte-Honorine, arredores de Paris e foi morto por um extremista islâmico de nome Abdullakh Anzorov. Pobre de quem aos 18 anos odeia a liberdade e vive cego pelo fanatismo religioso.

O professor, ídolo para a maioria dos alunos, tinha exibido nas aulas no início de outubro as caricaturas do profeta Maomé, a propósito da liberdade de expressão, um gesto sem significado aparente custou-lhe a vida.

Saliento que, apesar disso, várias mesquitas lhe prestaram homenagem por meio do cumprimento de minutos de silêncio e de defesa da coexistência pacífica. A origem deste homicídio remonta a 2015, quando uma chacina, executada por terroristas islâmicos, fez 12 mortos na altura dos ataques à revista satírica Charlie Hebdo.

O fracasso do melting pot cultural tem conduzido as sociedades ao antagonismo e à polarização, à dificuldade de diálogo e à intolerância que se traduz em evidente retrocesso civilizacional.

A propósito deste homicídio, que não é caso isolado, o presidente Macron referiu, “um dos nossos concidadãos foi assassinado porque ensinou, ensinou aos seus alunos a liberdade de expressão, sobre crer ou não crer”.

O futuro das sociedades terá sempre a ver com a boa ou má prestação do sistema de educação e ensino, onde o papel do Estado é estruturante e o do professor fundamental.

É nas escolas que se joga o futuro dos sistemas democráticos e do estado social, da coesão e tolerância cívicas. Só a escola é verdadeiramente inclusiva e, quando não o for,  sê-lo-á ainda menos a sociedade no seu todo.

Os países que têm hoje melhores padrões de vida são os que investiram nas escolas e no conhecimento, os que tudo fizeram pela liberdade de expressão e o aprofundamento do ideal democrático, onde todos têm voz.

Em homenagem a Samuel Paty, e aos professores, leu-se na Sorbonne uma carta de Camus que data de 1957, dirigida ao professor Germain. Camus manifestou a sua gratidão ao mestre pela forma como transformou a sua vida. Quando soube da distinção com o prémio Nobel, escreveu: “o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para si. Sem a mão afetuosa que estendeu ao menino pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo nada disto teria acontecido”. Para M. Germain, ser professor,  mais do que uma maneira de ganhar a vida, era uma forma de dar sentido à existência.

Quantas vezes por escassez de recursos ou outras razões, os Estados não são generosos e reconhecidos para com os professores. Apesar disso, ser professor é muito mais do que o reconhecimento que a sociedade teima em negar-lhes.

O que seria de nós sem os professores que tivemos. Até os menos empenhados e conhecedores deixaram alguma coisa de bom. Mas professores, só o são verdadeiramente os que como Samuel Paty ensinam a tolerância e hasteiam as bandeiras da inclusão e da liberdade.

A Voz de Trás-os-Montes

 

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