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À Procura De Soluções Para Problemas Inexistentes – Paulo Prudêncio

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Não faz sentido a dicotomia entre conteúdos e competências nem entre saberes e interdisciplinaridade ou entre avaliação e classificação. Como não faz sentido priorizar a antiga economia através da obsoleta indústria de formação de professores (“dos fantásticos professores“) e omitir as mudanças essenciais na estrutura da escola. Acima de tudo, é como se fosse possível ter uma competência vazia de conteúdos ou um saber isolado do mundo dos saberes. E é cansativo como a discussão escolar está há décadas centrada na solução de problemas inexistentes; e até no estado de pandemia isso acontece.

Por exemplo, e com as naturais incertezas em relação à avaliação dos alunos, ouvi um governante da educaçaõ atribuir ao verbo “avaliar” uma função mais abrangente do que ao verbo “classificar” e considerar a ideia como fundamental. Disse que o segundo se circunscreve à nota. É mais uma dicotomia sem sentido em termos etimológicos e docimológicos. Tem, quando muito, um uso de senso comum ligado à prática política. Avaliar significa “determinar a valia ou o valor de” e é sinónimo de classificar que significa “distribuir em classes ou grupos com características semelhantes; determinar a classe de algo num conjunto; ordenar; atribuir uma nota aqualificar”. O que é fundamental, é que os sinónimos avaliar e classificar procurem rigor nas mais variadas finalidades, domínios e modelos taxonómicos e com instrumentos que recolham dados dos avaliados ou classificados em igualdade de circunstâncias e adaptados à sociedade emergente.

Deve ser outra a discussão que eleva as escolas democráticas no sentido da equidade, da igualdade de oportunidades e da qualidade sustentada. Deve centrar-se nas condições de realização do ensino e das aprendizagens e na ideia de não deixar ninguém para trás: alunos, professores e outros profissionais. 

Em Setembro, e com ou sem blended learning (presencial e internet), lá nos confrontaremos com as componentes críticas: escala das organizações escolares que lhes retira proximidade e as normaliza, clima escolar que “elimina” os professores da massa crítica, hiperburocacia digital que trava iniciativas, parque tecnológico, e didáctico, obsoleto e inúmeros problemas da profissionalidade a começar pelos alunos por turma, pelas carreiras e pela falta de profissionais. A escola tem que se aproximar de condições civilizadas e aglutinadoras que façam do ambiente, da humanização e da transição digital os eixos nucleares. E como é que isso se faz? Para além do que foi dito, começar por detalhes determinantes: horários escolares sem campainhas (introduzidas para controlar operários na segunda fase da revolução industrial no século XIX), intervalos descentrados no tempo e de acordo com as necessidades das diversas disciplinas e das idades dos alunos e que permitam práticas inovadoras, autónomas e responsáveis.

Aliás, as exigentes teorias da aprendizagem (ou métodos de ensino, uma vez que se sabe pouco sobre o modo como cada um aprende) da primeira década deste milénio, que conjugam o ensino presencial com as ferramentas digitais, têm um vocabular muito distante do descrito na imagem e que centra a discussão do inexistente: por exemplo, e aconselho a consulta “desta dissertação” de José Mota e “desta publicação” de Paulo Guinote, estudar a “Knowing Knowledge (2006), de Siemens” com a análise de quatro domínios da aprendizagem: “por transmissão, por emergência, por aquisição e por acreção”; ou (Siemens 17-10-2003) conhecer o desenvolvimento das seguintes características: “ser informal e não estruturado; ser rico em ferramentas; possuir consistência e perdurar; transmitir confiança; ser simples; ser descentralizado, apoiado e conetado; possuir um alto nível de tolerância.”

Digamos que a discussão escolar, mais ainda em tempo de pandemia e até a pensar no que aí vem, deve buscar soluções para problemas existentes e enquadradas na nova economia.

Fonte: Correntes

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