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A indisciplina na escola – A saga continua

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Podia bem começar por falar no meu tempo. No meu tempo já havia indisciplina em algumas escolas, mas nesse tempo eram situação residuais, não a norma.

Chegados à escola contemporânea, “onde cabem todos”, queiram ou não queiram, mereçam ou não mereçam, prejudiquem ou não prejudiquem toda a comunidade, estamos no limite da decência.

Bem sabemos que a universalização do ensino obrigatório, cada vez mais longo, apresenta-nos desafios diferentes para os quais não temos sabido responder. Passámos de uma escola demasiado exclusiva e autoritária para uma escola laxista e indisciplinada. Inclusiva, dizem!

Para Castro (2010), o conceito de indisciplina está sujeito a múltiplas interpretações, sendo que o sujeito indisciplinado “é, em princípio, alguém que possui um comportamento desviante em relação a uma norma, explícita ou implícita, sancionada em termos escolares e sociais”.

Na mesma linha de pensamento, Ferreira (1986) refere que a palavra indisciplina é definida como procedimento, ato ou dito contrário à disciplina, desobediência, desordem, rebelião.

Posto isto, podemos afirmar que um aluno indisciplinado é um aluno com um comportamento desviante, que não obedece aos adultos de referência criando com isso desordem na comunidade escolar.

Destes alunos está a escola cada vez mais cheia e as principais causas deste fenómeno devem ser identificadas. Estas podem ser externas ou internas à escola. Externas quando não podemos ignorar a influência dos meios de comunicação, a violência social e os problemas no ambiente familiar.

Relativamente às causas internas, estas são representadas pelo ambiente escolar, as condições de ensino-aprendizagem, os modos de relacionamento humano, o perfil dos alunos e sua capacidade de se adaptar aos esquemas da escola.

Não podemos com isso isentar nem a escola nem a família como fatores potenciadores de indisciplina no meio escolar.

De há vários anos a esta parte a educação familiar passou a ser regida pelos conceitos psicológicos que caracterizam uma educação sem limites e, como é fácil perceber, as consequências estão à vista.

Relativamente à escola não a podemos isentar no sentido em que não soube fazer as necessárias alterações para receber um cada vez maior número de alunos e uma cada vez maior diversidade na origem dos mesmos.

Um mito que deve ser cabalmente desmistificado é o de que a indisciplina acontece por culpa exclusiva do professor que, dizem, “não sabe impor a disciplina” como se a relação entre professores e alunos fosse apenas da responsabilidade dos professores É um caminho demasiado perigoso para quem por ele se queira guiar!

Se queremos recuperar alguma dignidade para a classe docente, mas sobretudo recuperar o respeito institucional que a escola outrora teve é necessário agir já, sobre pena de o estarmos a fazer tarde de mais.

Outros fatores que favorecem a indisciplina são, entre outros, a desresponsabilização dos pais/encarregados de educação; desvalorização da classe docente; culpabilização exclusiva dos professores; regras disciplinares mal definidas e com sanções pouco claras ou inexequíveis; turmas demasiado grandes; não consideração das características socioeconómico dos alunos; não consideração das características de cada nível etário; aulas pouco motivadoras por falta de meios e recursos digitais nas escolas; salas de aula sem condições;

 

A indisciplina na escola é como um radical livre. Passeia livremente sem que ninguém seriamente o queira “tratar”. Muitos de nós já detetaram que, sobretudo, a escola pública está a deixar de cumprir o seu papel de elevador social muito por culpa da indisciplina.

Esta luta devia constar no TOP3 das lutas sindicais. Mas o que se vê é que não há ninguém que se solidarize com a causa e com os efeitos nocivos que a mesma transporta para toda a sociedade, e tome medidas para a erradicar das escolas!

Não lhe parece que esta é uma luta legitima e de emergência nacional?

 

Alberto Veronesi

 

Castro, M. C. (2010). Indisciplina: Um olhar sobre os distúrbios disciplinares na escola. Revista Electrónica da Faculdade Semar/Unicastelo, N.º 1.  V. 1, 1-24.

Ferreira, A. B. H. (1986). Novo Dicionário da Língua Portuguesa. (2 ed.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

1 COMENTÁRIO

  1. Neste site, alguns comentários parecem-me de uma indisciplina evidente, do tipo daquela que atribuem a adolescentes, com laivos de falta de respeito e de falta de algumas regras educação.
    No meu tempo, a indisciplina na aula era resolvida à pancada. Nem distraído se podia estar, logo o ponteiro caía sobre as orelhas! Será esta a solução que propõem? Não me parece que tenham qualquer solução a apresentar. Só conversa. Com muitos patrocínios, que até custa navegar neste site. Espero que financeiramente seja compensador!

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