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A escola do século XXI – Aurora Cerqueira Pedro Selas

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A interrupção súbita das aulas, provocada pela pandemia, veio gerar uma ansiedade sem limites nos profissionais de educação, nas famílias, que pressionaram o governo a encontrar resposta para o atraso na lecionação dos conteúdos e consequente avaliação dos alunos. As respostas encontradas foram, por um lado, de eliminação do que não era fundamental (as provas finais de 9.º ano), e por outro de recurso às tecnologias para possibilitar o ensino à distância. Muitos têm sido os que veem nesta modalidade a revolução de que a escola precisa. Porém, neste caso, o meio não é a mensagem. Os professores continuam, frente ao seu computador, a transmitir informação e os alunos estão nas suas casas a poderem fazer eletronicamente aquilo que os professores tentavam impedir nas aulas presenciais – falar entre si, jogar, etc..

A educação, enquanto fator de criação do humano, é um mecanismo fundamental para a partilha dos saberes comuns, para o funcionamento da sociedade e para a transformação dos indivíduos e das mesmas sociedades. Por isso, não é de estranhar que cada sistema educativo tenda para a manutenção, resistindo às mudanças, evitando alterações das sociedades que os sustentam.

Um olhar sobre o sistema educativo, mostra muitas incoerências, sobretudo na utilização de conceitos cujo domínio permitiria fazer os avanços que entendemos necessários para a construção do indivíduo social do século XXI. Ensino e aprendizagem quase como sinónimos, dados, informação e conhecimento situados ao mesmo nível, a ideia de que é na escola que se aprende, como se o mundo todo sofresse fenómenos de apagamento, e ainda a incapacidade de tornar flexíveis os papéis de educador e educando.

A nossa atenção mostra que é incontornável falar de disciplinas e da forma como funcionam nas nossas escolas. Ao compartimentar os saberes, não se favorece a perceção de que o conhecimento resulta dos contributos de várias áreas do saber. Pior, devido à existência de provas finais e exames, incentivam-se os sujeitos a socorrer-se da memória para corresponder a esses momentos de avaliação externa, os quais são igualmente reproduzidos nos momentos formais de avaliação escrita realizada por cada professor. Se é certo que temos consciência da importância dos exames nacionais para o desenho do percurso universitário do estudante, sabemos igualmente que avaliam uma parcela demasiado estreita do perfil que se deseja num cidadão à saída da escolaridade obrigatória (vd. Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória).

Se as disciplinas, iniciadas nas oficinas, nos colégios militares e nos conventos, fazem algum sentido numa organização económica e social reguladora e condicionadora dos indivíduos a um padrão de obediência, temos hoje a certeza de que, neste século XXI, a educação tem de ser libertadora dos indivíduos que frequentam a escola, promovendo a construção de conhecimento pelo próprio, favorecendo a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e a criatividade.

Por isso, a escola deverá avançar no sentido de se tornar uma comunidade de aprendizagem que promove a comunicação e a construção de relações interpessoais sólidas. Desiste da divisão dos alunos em turmas e em ciclos e favorece a construção de percursos individuais de aprendizagem, partindo dos interesses manifestados por cada educando, sendo nos roteiros individuais que vão sendo construídos pelo educando em conjunto com os educadores que o aluno trabalhará significativamente as Aprendizagens Essenciais. Para que tal possa acontecer, será necessário o envolvimento dos professores, dos assistentes administrativos e operacionais, das famílias, dos alunos e de todos os voluntários que poderão enriquecer os percursos realizados individualmente e em grupo. O que é curioso é que, desde 2018, a legislação já permite todos estes avanços. Terá falhado a formação?!

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

Público

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