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A escola de depois de amanhã – Eduardo Sá

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Que custos trazem dois anos adoentados de escola?

Às crianças mais pequeninas, a quarentena trouxe-lhes uma quebra grande do seu rendimento escolar. As que estavam mais envolvidas com as suas descobertas e com os seus pequenos sucessos, quando regressaram à escola, em Setembro, perceberam que outros colegas tinham “aproveitado o tempo” de forma melhor e, quem era, dantes, mais seguro ficou mais assustadiço com aquilo que não sabe e, hoje, barrica-se, mais vezes, no “Não sei!”.

 

Muitos adolescentes, com algumas dificuldades de afirmação no meio de uma turma – porque se sentiam tímidos, porque temiam ser ridicularizados ou porque lidavam com a sua insegurança de forma “soluçante” – aproveitaram as aulas online para se desinibirem, a coberto da distância, e, com a pandemia, aproveitaram o distanciamento social para se aproximarem para muito mais perto daquilo que são capazes de fazer.

 

Outros alunos, talvez mais em “auto-gestão” do que deviam, desencontraram-se com a escola e – se, dantes, já as tinham – hoje, as suas dificuldades escolares aventuram-se de forma mais agravada.

Antes da pandemia, eu comentava, amiúde, com alguns pais, que dois anos “muito assim-assim”, em relação a uma disciplina, a “constipavam, gravemente”, a ponto dos seus filhos, naquela área de conhecimento, se refugiarem no já clássico “Não sou bom”, que fazia com que os seus desempenhos ficassem tolhidos com tantas inibições que acabavam mesmo por não ser “bons” naquela área do conhecimento, “para sempre”. Quando tinham o azar de ter um professor “difícil”, dois anos seguidos, podiam comprometer a própria escolaridade de forma irreparável.

 

A diferença, hoje, é que todos os nossos filhos têm dois anos de escolaridade cheios de solavancos. A questão essencial que nos deve preocupar não é tanto se eles têm ou não têm aulas presenciais. Porque, a bem da verdade, poucas vezes a sua presença física levou a que o sistema conte com a sua presença – efectiva, activa e participativa – em todo o processo de aprendizagem. O que nos deve pôr, a todos, a fazer contas serão os custos de dois anos lectivos que lhes estão a trazer muitas limitações à forma como eles conquistam muitos conhecimentos. Muitos, e muito graves, constrangimentos na forma como eles precisam de viver o espaço da escola e as relações que ela lhes traz. E muitos sobressaltos nas formas de avaliação dos seus conhecimentos que, hoje – mais, ainda – nos deviam pôr, humildemente, a discutir a sua eficácia da forma como os avaliamos, como se a escola não pudesse senão continuar na sua deriva de “decora, repete e esquece” onde o sistema educativo os foi confinando, quase desde sempre.

 

Que custos irão ter dois anos adoentados de escola?!…

 

E, notem, a escola, em si, não está doente. Pelo lado de quem a dirige e, sobretudo, considerando a dedicação dos professores. O sistema educativo – esse, sim – se, desde há muitos anos, estava doente, agora, pode ficar pior. Porque tanta resiliência e tantos rasgos de rebeldia criativa diante de todas as contrariedades, diante de todos os riscos e, mesmo, diante de tantas condições (muitas vezes!) vergonhosas de ensino poderia levar a supor que a escola se transformou num furacão de vida que assusta qualquer pandemia. Mas não! O que me alarma é que, já a seguir, vencida a guerra contra o vírus, “todos” concluam que, afinal, ficou tudo bem. Que os alunos continuem confinados à forma mecânica a que o sistema educativo foi remetendo a sua aprendizagem. Que o “elevador social” que a escola devia ser, afinal, não ficou parado entre os andares 2020 e 2021. E que os rankings das escolas e os rankings dos sistemas educativos voltem a fazer de conta que os números não enganam e que, afinal, a escola não só não ficou com sequelas pandémicas. E que continuemos todos num distanciamento errático em relação aquilo que a escola do século XXI deve ser. Como se a “escola de depois de amanhã” fosse qualquer coisa da ordem das “tradições ainda são o que eram”. Agora, com tablets, claro. Connosco a sentir que quase “tudo” mudou para ficar quase tudo na mesma. Mais uma vez.

Fonte: Eduardosa

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