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A escola com futuro – José Augusto Pacheco

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Não faltam estudos e ensaios especializados (e também a opinião generalista) sobre a educação e a escola na pós-pandemia de covid-19. Um desses ensaios é o da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), publicado em 2020, e que tem por título “A educação do amanhã: inércia ou transformação?”, em resposta a este repto: Como poderá ser a educação a partir das múltiplas inovações e tendências do nosso tempo, em particular daquelas que podem sugerir quer uma profunda disrupção nas formas tradicionais de ensinar e de aprender, quer uma educação mais integral na Ibero-América?

De um modo mais concreto, e mantendo-se a OEI no registo da Agenda 2030, que focaliza a matriz da educação mais na inclusão e na integração do que na exclusão e na meritocrização, é de admitir que o cenário do fim da escola seja supostamente possível, se bem que não ajustado à realidade.

Os movimentos de desescolarização têm história na pedagogia não diretiva, essa utopia sempre necessária, bem como na tecnologia, particularmente na alteração dos modos de aprender e de ensinar, numa perspetiva que vai da total substituição do professor até à completa autonomia do aluno. Ou seja, o cenário mais pessimista é algo que sempre faz parte de qualquer modelo previsional. Perante as incertezas do presente, em que a pandemia altera de forma radical formas de pensar e agir, uma sociedade sem escola é algo que não é possível, pois sem educação também não há humanidade.

A questão a colocar é, assim, a da interação pedagógica, sendo pertinente interrogarmo-nos se muito dessa interação, como já acontece na Internet das coisas, não englobará os não-humanos ou os pós-humanos, uma vez que a inteligência artificial é um exemplo de alteração profunda da nossa relação com o conhecimento e com os modos de aprender e de ensinar.

Mas, nesse caso, estaremos perante uma nova ordem de poder – a algoritmocracia – mais radical na inovação, por um lado, e mais homogeneizante, por outro, em que a educação baseada nos dados digitais converte professores e alunos em números e reforça o conhecimento de pendor calculista e quantitativo. Decerto, dominaremos mais informação e compreenderemos menos o conhecimento.

Será preferível admitir que as tecnologias digitais não só já fazem parte da realidade educativa das escolas, em que a pandemia apenas acelerou o seu ritmo, como também já alteraram o lugar e o tempo educacionais, de que a ubiquidade tecnológica é um exemplo positivo, aumentando e enriquecendo as formas de ensinar e de aprender.

Para isso, o domínio das competências digitais é uma das prioridades educativas numa aprendizagem ao longo da vida que exige, também, um investimento em educação, focado em políticas de inclusão escolar, numa perspetiva de desenvolvimento pessoal e social dos alunos, e em políticas que promovam tanto formas de liderança e de gestão orientadas para a autonomia das escolas, quanto processos e práticas de avaliação das aprendizagens, do desempenho profissional docente e da avaliação institucional das escolas.

Ainda em tempos de pandemia, o funcionamento presencial das escolas em Portugal e em Espanha é peculiar, pois na grande maioria dos americanos da OEI as escolas permanecem em atividades quase exclusivamente não presenciais. Os efeitos de um tempo tão prolongado sem uma interação pedagógica, baseada no clima físico da escola, repercute-se, de modo negativo, no desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos alunos e na igualdade de tratamento dos grupos específicos que frequentam a escola.

Uma escola aberta e com um ensino presencial é determinante para a inclusão e para a integração dos alunos, garantindo o princípio da igualdade que está na base de uma educação que é efetivamente para todos.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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