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A educação em época de mudança – José Fernandes e Fernandes

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Na análise dos grandes desafios da pandemia de covid-19 a Educação será um sector em que o impacto da crise será mais significativo. O que se fizer na Educação, agora marcará o Futuro, e, por isso, é tão importante e prioritário.

1. A atuação do Governo pareceu-me a resposta possível à necessidade de fechar os estabelecimentos de ensino, como medida essencial para reduzir a disseminação da doença. Há sempre lugar para uma questão – poder-se-ia ter antecipado a tempestade?

A Política é a arte de prever, antecipar realidades e problemas e definir estratégias para a realização do Bem Comum. Por vezes, passa a imagem duma elite dirigente a funcionar muito em circuito fechado de informação. Será a causa de alguma sobranceria também conhecida na gíria por Hubris?

Em boa verdade já os chineses em dezembro de 2019 na província de Hubei (60 milhões de pessoas) e os italianos, em toda a Lombardia em janeiro de 2020, tinham encerrado as escolas, por isso era de prever que o problema chegasse à península ibérica.

Mas enfim, já não é a minha área directa de actuação, mas o que sei da minha Faculdade e de outras foi um tour de force muito bem conseguido e a funcionar a contento.

Ninguém ignora as consequências potenciais, sobretudo sobre os sectores mais desfavorecidos da comunidade discente, onde muitos ainda encontravam na Escola apoio para alimentação adequada e criavam hábitos de sociabilização, convivência e integração. A solução adoptada do ensino à distância era a única possível e pode representar para o futuro um avanço positivo, que me parece ser mais fácil no pré-universitário e no ensino superior onde aliás já se praticava.

Há muito que se falava que a moderna tecnologia de informação iria ter um impacto grande na Educação. A Pandemia veio trazer uma oportunidade de experimentação social que doutra forma seria difícil que tivesse tal dimensão, uma verdadeira aceleração do processo de evolução que se adivinhava. Harari chamou-lhe fast forward na evolução histórica, e, neste caso, ao serviço potencial duma estratégia de renovação dos processos educativos.

2. Há dois requisitos fundamentais para a sua eficácia. O primeiro é logístico, fundamental para a montagem deste tipo de intervenção, para que ela realmente seja eficaz e abrangente. Do equipamento dos docentes e dos discentes, pois nem todos possuirão computadores e menos ainda estarão treinados com toda a mecânica do processo, que é complexo e um desafio tremendo ao sistema tradicional de ensino. O segundo, é saber o que se pretende ensinar e como fazer, tirando todo o partido da tecnologia, sem alienar a atenção dos alunos.

A oportunidade era de que uma mudança destas, proporcionasse um salto qualitativo importante na modernização do ensino, envolvendo todos os participantes e, por isso, teria sido muito importante que tivesse sido considerado como um desígnio nacional, uma oportunidade de evolução abrangendo não só o sector público, como os outros, privado, cooperativo e social.

Infelizmente, os governos tendem a considerar-se apenas como guardiões do sector público, o qual administram diretamente, de acordo com a ideologia dominante, as cumplicidades partidárias, esquecendo a sua missão de tutela nacional, da orientação à monitorização e avaliação da qualidade. Esse é que é o verdadeiro exercício da responsabilidade pública e a arte da governação. Tem sido assim na Saúde, e a Educação não foi diferente!

Ninguém discutirá a necessidade dum sector público de Educação de qualidade e referência, o qual coexiste na realidade nacional com outros modelos de organização, cooperativa, social e privada, que não deveriam ser excluídos neste processo de renovação.

3. O debate público nos últimos anos foi muito dominado por questões importantes de progressões na carreira, remuneração, conflitos laborais, precariedade das instalações, e menos sobre que tipo de ensino, qual a exigência indispensável, sobre a qualidade e interesse dos programas, o uso de metodologias inovadoras e aproveitamento das modernas tecnologias. Se existiu, teve menor impacto público e não sei se possibilitou criação de massa crítica e pensamento capaz de, em situação de crise, se converter em acção profícua e imediata.

Discutir a estratégia proposta e os seus objetivos será indispensável, como nos outros sectores da vida nacional. Faz parte do exercício de cidadania e da exigência democrática de escrutínio de quem dirige.

Disporá o sector público dos recursos, da flexibilidade e capacidade de adaptação que permitam ultrapassar esta crise com tranquilidade e eficácia, ou estará prisioneiro de rigidez burocrática e da falta de meios? Haverá um plano para preparar, apoiar e mobilizar docentes? Espera-se que sim. Disponibilidade, boa vontade e espírito de cooperação dos Professores têm sido evidentes nas intervenções que vêm a público. Eles serão o elemento chave em qualquer reforma da Educação, e aquilo que se prefigura poderá ser uma enorme revolução na Educação, com novas possibilidades que a tecnologia pode proporcionar, mas sem que se perca o valor intangível do contato pessoal professor-aluno, da força do exemplo e do estímulo individual. É essencial no ensino básico e secundário, onde se formam carácter, disciplina mental e se adquirem hábitos de estudo. Obviamente, é também relevante nos restantes graus de ensino, mas aí espera-se maior maturidade, autonomia intelectual dos alunos e capacidade de autoaprendizagem.

Os sectores não públicos encontrarão mais facilmente meios e metodologias para os novos desafios e outros cenários de intervenção pedagógica? Poderão ter acesso se necessário à rede instalada de televisão ou terão que investir numa própria? Certamente, por limitação própria de tempo, ignoro se esses sectores estão mobilizados, têm estratégia e recursos para avançar com um processo potencialmente reformista que a presente necessidade suscita. Era importante que a sua voz fosse também ouvida e tivessem participação activa. Espero que não seja como na Saúde, onde tudo obviamente teria que ser centrado no SNS, mas deveria ter envolvido desde o princípio os outros parceiros, das Forças Armadas, Bombeiros e forças de Segurança, aos sectores privado e social, numa estratégia global e integrada indispensável ao bom exercício da responsabilidade pública.

São questões pertinentes. Há o risco de o ensino público perder qualidade e a capacidade de ser factor de coesão e de mobilidade social, agravando-se diferenças sociais e de oportunidades entre a comunidade discente.

4. É chegado o tempo de abertura? Certamente a decisão de reabrir o sector pré-universitário terá obedecido a ponderação informada e fundamentação científica sólida. Noutras sociedades, começou-se pelos sectores pré-escolar e básico, com justificação plausível: menor risco de contaminação das crianças e, também, de contraírem doença grave – houve exceções, infelizmente, mas são raríssimas. Possibilitaria, também, a libertação dos pais para a retoma progressiva da sua atividade normal. E também, porque os alunos dos últimos anos do secundário terão maior maturidade e capacidade de autoaprendizagem e certamente o seu ensino à distância seria menos complicado.

Infelizmente receio que tenham prevalecido na decisão o temor dos exames e a luta pela classificação de acesso à Universidade, sobre a aquisição de uma educação, formação humana e científica e cultura. Foi uma luta que perdi ingloriamente na direção da Faculdade de Medicina: mudar o foco da memorização de três disciplinas e a luta insana pela nota, em vez de conhecimento, cultura, curiosidade e abertura de espírito, avaliados também em entrevista pessoal e que são alicerces indispensáveis para a aprendizagem na Universidade. Contas de outro rosário…. Agora teria dado jeito e causava menos atrapalhação se tivéssemos modernizado o sistema de acesso à Universidade!

Hoje 16/4 no regresso do hospital, já não chovia e fazia um sol primaveril glorioso; vários grupos de gente jovem passeavam em Monsanto ou conversavam nos passeios, sem máscara e sem salvaguarda do distanciamento social. Este tipo de abrandamento da guarda necessária é perigoso, em especial na abertura dos estabelecimentos de ensino, com a euforia do reencontro e regresso à escola.

Deveria haver uma campanha nos media, que fosse atrativa e inovadora, e não a repetição de conselhos paternalistas e maçadores, que fizesse ver à população o risco que corre. E é fundamental que as televisões sejam mais que his master’s voice como se dizia no tempo da outra senhora e não insistam na mensagem que o túnel está no fim! Pode não estar e se formos descuidados, voltamos rapidamente para trás, com um custo potencial tremendo.

Para todas estas decisões e controvérsias esperava-se comparticipação ativa das oposições, com crítica informada e sugestões práticas. Há silêncios, que serão interpretados por conivência ou complacência. Não seria quebra na unidade essencial discuti-las antes da fase de implementação. Assim passará como expressão de unicidade de pensamento, que não sendo imposta por nenhuma ditadura, mais parece ausência de alternativas credíveis.

Prudência no timing do alívio nas restrições e na retoma progressiva da atividade. A capacidade dos portugueses de reação à adversidade, de adaptação e o seu sentido colectivo, provavelmente só surpreenderá quem se contente com apreciações superficiais, que uma sociedade acolhedora, que aprecia a Vida, o sol, o encanto do convívio humano pode transmitir. É capaz de uma enorme generosidade e dum espírito de sacrifício e de solidariedade que lhe permitiu ultrapassar e sobreviver às tormentas, sem medo. Verdade, transparência nos procedimentos e rigor na avaliação é a linguagem que os portugueses exigem. Tudo o que estiver aquém será inaceitável!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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