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“A educação é um bem caro, complexo e de difícil acesso” – Raquel Varela

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Um computador portátil é um bem barato e simples acessível. A educação é um bem caro, complexo e de difícil acesso, cada vez mais.

A propósito do debate aqui hoje sobre tecnologias e os rendimentos das famílias, uma nota. A desigualdade na educação com aulas remotas não se deu por quem tem ou não internet, tem ou não computador – os sindicatos acentuaram esta ideia, mas é um erro. Isso é um fait-divers. Muitos professores caíram na armadilha de achar que o acesso à internet configurava uma desigualdade. Na verdade quem teve internet nas “aulas” online e quem não teve aprendeu mais ou menos o mesmo – isto é, nada. A desigualdade está em quem durante a pandemia deu aulas aos filhos presenciais ou as pagou a explicadores, e quem não o pode fazer.

Hoje aquilo que obstaculiza o acesso democrático é a dualidade do ensino cientifico versus o “ensino de competências”, é a dualidade entre escolas de qualidade e professores de carne e osso que dão aulas individuais, chamadas explicações, e as outras, que são a maioria, onde os alunos não aprendem o essencial, vitimas da deficiente formação, maus programas, maus salários e turmas grandes. Explicações não são centros de estudo, lugares onde se aprende pouco e mal porque se reproduz o que está mal na escola, maus salários e muitos alunos. Esse tempo devia aliás ser ocupado a brincar livremente em vez de mais horas fechado a repetir os erros da escola. Estou a falar de explicações individuais – é aí que está a diferença central, quando em 1 hora aprendem bem e muito o que não aprendem num mês – e aí sim podem passar a tarde a brincar. Três meses de explicações de física ou química no 11º ano pagam um bom portátil. O computador é uma tecnologia, intuitiva – todos aprendem a usar rapidamente sem ser ensinados. A ciência que permite o computador necessita de uma educação fundamental clássica que é longa, difícil, complexa, exige os melhores professores nas melhores condições. Hoje esse ensino é uma quimera na maioria das escolas públicas ou privadas. Há anos que a classe média portuguesa aceitou a privatização da escola pública, que paga com impostos, pagando explicações privadas, paga duas vezes portanto, porque sabem que de outra forma, salvo raras exceções, o ensino é cada vez mais deficitário e coloca em causa o futuro dos filhos, embalado por sucessivos Governos em conceitos elevados como autonomia e competências que a olho nu são vazios de qualquer sentido real cientifico. A escola para o mercado de trabalho pobre e periférico português tornou-se tão má como o mercado de trabalho que quer servir. O explicador é um professor individual privado e hoje quem pode vai optar por esta solução, se quer assegurar ensino complexo (há outro?) aos filhos.

Nesta pandemia muitos pais que puderam tiveram o bom senso de colocar os filhos em explicações presenciais a partir de Maio e é isso que vai determinar o seu desempenho nos exames e no acesso à Universidade. A desigualdade não esteve nunca em que tinha bom ensino remoto, com bons computadores. Mas em que tem bom ensino presencial e quem não tem. Se se compreender isto talvez se tenha coragem de usar o dinheiro no ano que vem não para comprar computadores mas para reduzir turmas e melhorar carreiras docentes. A escola nunca pode ser orientada para o mercado de trabalho mas para o conhecimento científico de excelência, para todos. Menos computadores, mais educação, e assim, sim, teremos muito mais autonomia (independência, saber, espírito critico) quer de professores, quer de alunos.

Por caminhos da crítica da economia política – a Alemanha já avisou que o dinheiro é “empréstimo”, para devolver, e só será para comprar máquinas, não pode ser usado a aumentar salários. Quem diria. Assim se vai perdendo autonomia, embora rodeados de tecnologia. E o Governo o que vai fazer? Comprar computadores ou pagar salários? Dizer sim ou dizer não? (peça de Brecht sobre escolhas, que aconselho vivamente a lerem).

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