Início Editorial A digitalização não resolve os problemas de Setembro – Alberto Veronesi

A digitalização não resolve os problemas de Setembro – Alberto Veronesi

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Soubemos por estes dias que o Governo tem intenção de injetar 400 milhões para a Universalização da Escola Digital. No documento, o Plano de Estabilização Económica e Social, particulariza-se assim (ponto 1.2) a medida: “Universalização do acesso e utilização de recursos didáticos e educativos digitais por todos os alunos e docentes. Numa primeira fase prevê-se: Ao nível infraestrutural, adquirir computadores, conectividade e licenças de software para as escolas públicas, dando prioridade aos alunos abrangidos por apoios no âmbito da ação social escolar; desenvolver um programa de capacitação digital dos docentes; incrementar a desmaterialização de manuais escolares e a produção de novos recursos digitais.”

Antes de dedicar algumas linhas à análise do ponto em si, quero referir que não deixa de ser surpreendente ter sido o ministro da Economia a falar pela primeira vez da Escola Digital. Continuamos sem ministro da Educação. Apenas o secretário de Estado João Costa, que tem assumido a “liderança”, tem dado algumas ideias, vagas, de como poderá ser o início do próximo ano letivo. Assumindo, inclusive, que o 3.º período foi um remendo e não uma solução de futuro. Em síntese, continuamos sem grandes planos, pelo menos visíveis, para o próximo ano letivo, mas já temos um número, 400 milhões.

Entretanto, parece-me que é preciso atentar a algumas questões.

Serão poucos os que não concordarão com a necessidade de dar este passo tecnológico. Mas arrisco-me a dizer que os mesmos consideram que, já para setembro, seria preferível outro tipo de medidas e, sobretudo, não tratando todos os ciclos por igual. Vejamos: o pré-escolar abriu a 1 de junho, mas só frequentam, segundo dados da Fenprof, 30% dos alunos. Como pretendem fazer em setembro, quando regressarem todos? Um computador para cada um?

No 1.º ciclo, onde a autonomia das crianças é reduzida, um computador para cada um também me parece uma solução necessária, mas curta. Nesse ciclo, sobretudo nos 1.º e 2.º, mas também nos 3.º e 4.º anos, são essenciais as aulas presenciais, ficando o ensino remoto apenas como complementar. Ora isso só se conseguiria se:

  • Reduzissem as turmas a, pelo menos, metade do estipulado no pré-covid-19;
  • Aumentassem proporcionalmente o número de professores;
  • Criassem turnos duplos (manhã/tarde) em todas as escolas;
  • Complementassem o presencial com o ensino remoto em turnos semanais.

Os outros ciclos, dos quais desconheço as dinâmicas aprofundadamente, teriam de ajustar processos à sua realidade.

Não me parece correto olhar-se para o todo e achar-se que, como que por magia, um computador resolverá o problema.

Cada ciclo tem as suas especificidades e por isso a revolução tecnológica deverá acontecer, como aliás escrevi aqui, e devemos aproveitar esta oportunidade, uma vez que conseguimos recolher dados nesta experiência, para a fazer. Mas devemos ser mais minuciosos na planificação.

Sendo necessário evitar abusos, poderia o Ministério da Educação reforçar o orçamento às escolas públicas para que possam adquirir equipamentos para emprestar aos alunos.

Aguardemos por tomadas de decisão.

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